Wednesday, February 07, 2018

orvalho




orvalho

retorno

um lugar para ir

estar sem palavras


os dias passam arrastados

como quando a roda da fortuna pára antes de descer e subir

todo um maquinário do universo se arrasta, minha urgência espremida nas engrenagens

quero subir, há tanto tempo. só dou voltas.

mas agora está acontecendo.

e o gosto de um sonho se tornando realidade

é um gosto de vento, de brisa, de água, é um gosto sem nome.

eu também sou uma pessoa sem nome.


uma pessoa atrás de uma sombra.

ouço canto gregoriano e quero ir mais para longe.

minha terapeuta me orienta a jogar argila numa bacia e aterrar.


e se eu não quiser a terra?

e se eu não precisar de terra hoje?

mas as fórmulas estão aí para isso, para funcionar, parar criar belos argumentos aparentemente invioláveis.


eu olho para a tela e tento pensar no quanto preciso sair de casa.

no quanto preciso viver com pessoas.

mas as pessoas parecem estar saindo dessa proposta sorrateiramente,

afinal dentro do quarto sagrado há uma ilha de prazer com seriados e filmes,

com música e silêncio.

um amigo médium me aconselhou a sair mais de casa.

mas eu não quero mais.


é só isso hoje, a coragem de não querer sair de casa e escrever isso.








Friday, January 12, 2018

Como ter mais amor na vida



Seria muito verdadeiro se eu conseguisse escrever sobre essa pesquisa.

São coisas verdadeiras. Eu já parei para pensar em como eu poderia amar mais a mim mesma, as pessoas, a vida, e ter mais amor na vida.

Eu sabia que era possível.

Mas era uma desconfiança intuitiva, não tinha método, pelo menos no começo.

Como alguém pode fazer para parar de odiar e começar a amar, para que o sentimento que ela mais tenha seja o de amor?

No começo, como tudo o que não é naturalmente desenvolvido, acontecia por vigilância.

Eu achava que o cristianismo era um tipo de polícia, ou pelo menos era assim que eu usava. Eu queria ser da igreja cristã, mas eu não sabia direito o que era fazer as coisas certas. Mesmo assim eu sabia que tinha coisa certa e coisa errada e sabia que isso podia ser simples ou complicado de perceber, dependendo da situação.

Mas eu comecei assim, comecei tentando ser boa, tentando fazer coisas boas para as pessoas e controlar minha raiva e meu ódio.

Mas não dava sempre certo agir assim. A raiva escapava, e muitas vezes eu era passivo-agressiva, sem querer, por influência externa mas muito por mim também, porque eu me sentia inferior aos outros o tempo todo por causa de dinheiro.

Ou porque eu não tinha uma carreira. Hoje eu vejo como eu nem sabia o quanto de importância eu dava pra isso, "ter uma carreira".

Se eu não tivesse uma carreira, eu não seria ninguém. E eu me sentia ninguém o tempo todo, mas ao mesmo tempo com um sentimento de carregar um grande potencial que eu não sabia no que ia se transformar. Era cansativo não só não me amar e não me sentir suficiente, mas me sentir humilhada.

Hoje eu sou uma pessoa mais relaxada a respeito de tudo isso. A vida não é tão mais um problema a ser resolvido e sim uma experiência.

Minha ansiedade baixou mas eu lutei muito por isso. Foi ao mesmo tempo uma coisa zen e uma coisa não zen. Foi zen no sentido de que foi parte de um caminho, mas não foi zen porque eu me esforcei para alcançar um certo nível de bem estar que não é das pessoas muito ansiosas. Isso veio com muita experiência espiritual fora da igreja.

Na igreja, eu sei que a pior parte do processo já passou. No começo era só ódio, raiva, inveja e orgulho. Era só isso e também um amor mal expresso, uma vontade de participar e de ser e de ser vista como alguém da igreja. Era horrível porque eu me sentia fora de Deus.

Essa é uma das piores sensações da vida, se sentir fora da festa onde Deus foi. Fora do país de Deus, fora da turma de amigos de Deus.

Uma das coisas que me ajuda é perceber as coisas boas que estão acontecendo no agora. Parece mindfulness mas não é. É mais um contato com Deus a partir de coisas concretas como um doce gostoso, um passeio na rua no fim de tarde, uma pessoa querida, ou mesmo as quatro paredes e o silêncio de dentro da casa.

Outra coisa que me ajudou foi insistir. No começo eu detestava as pessoas da igreja, e isso acontece ainda com alguns lugares e reuniões. Eu não entendia que a igreja tem vários grupos e tipos de pessoas e que eu podia não gostar nem me dar bem com aquelas pessoas. Eu forçava a relação mas sabendo que dali não ia sair muita coisa. Depois de um tempo, nada mais era tão preto e branco, mas essa coisa com as pessoas...

Eu percebi que eu tinha muita inveja de quem sempre tinha tido uma vida religiosa. E isso atrapalhava meu relacionamento com as pessoas da igreja. Mas depois eu percebi que eu não estava no grupo certo. O grupo que eu estava frequentando é muito sério e contido, as pessoas nunca relaxam ou pelo menos não me dão a impressão de relaxar.

Felizmente, depois de um tempo, eu consegui encontrar outra igreja mais respirável. Mas aí eu também não era a mesma. Era a segunda temporada e eu já tinha vencido vários sentimentos dolorosos como não gostar de alguma missa, dormir na missa, não gostar de milhares de pessoas que eu achava que devia gostar porque eram religiosas ou pior, gostar daquelas pessoas sem ter a menor vontade de encontrar no meio da semana para um café.

Mas outra coisa que aconteceu foi que algumas pessoas da igreja nova estavam no treino que eu queria, no treino do amor. E elas estavam mais calmas e isso me acalmou.

Antes, no começo do processo, eu só me vigiava, eu andava o tempo todo como vigia moralista de mim mesma, me julgando. Era insuportável.

Depois eu percebi que o amor estava perto da coragem. Não era exatamente força, era mais coragem, e a coragem é o melhor guia, a vontade do coração.

Isso quer dizer que viver com amor é sentir amor e deixar o amor vivo dentro do corpo, como um peixe num aquário, e isso faz com que não seja mais tão necessário se julgar e se vigiar, mas é mais viver de um jeito relaxado não reativo.

Não reativo eu aprendi com os detalhes cotidianos. A raiva que eu sentia de uma pessoa que parava na minha frente na rua, ou a raiva que eu sentia de um homem que passava na minha frente pra entrar no ônibus. E as pequenas vinganças que eu arquitetava, do tipo, "agora também vou demorar pra descer", esse tipo de vingança esdrúxula que eu fui abandonando com o tempo, porque eu fui percebendo que se eu vigiasse e evitasse as minhas vinganças eu ia ter saúde.

O Zen ajudou muito no começo, muito mesmo. Tem algo no zen, o foco na ação ou no silêncio, saber que o ego pode ser um inimigo.

Mas essas coisas não são suficientes, é preciso uma orientação mais clara sobre não ser reativo e aprender a imitar Cristo que veio sim, também dos meus estudos sobre René Girard.

Reconhecer que eu posso tentar não contribuir para uma lógica comportamental violenta.

Hoje eu tenho alguma naturalidade com o amor que é difícil e seria super brega se eu tentasse definir.

Me libertei bastante do ódio, quando sinto raiva, fico muito triste. Não gosto. Me lembra coisas ruins. Mas eu sei que a raiva é poderosa.

A raiva me ajudou muito já, ter um plano sustentado pela raiva.

Hoje eu sinto que meus desejos podem se realizar e que eu estou uma pessoa mais tranquila comigo mesma.

Sou uma pessoa que os gatos adoram, tenho poucos e bons amigos.

Mas eu sei o que foi chegar até esse começo de vida na igreja. Um caminho está sempre além das palavras.





Não ensinam as mulheres a parar de odiar



Queria dizer que a minha vida de classe média é muito fácil. Mas não é.

É uma vida cheia de violência, cheia de homens desprezíveis.

A minha vida é um balanço pendular entre momentos muito bons e aqueles outros momentos, em que algum homem fez alguma merda.

E isso me faz pensar que não se ensina as mulheres a parar de odiar.

Mas parar de odiar é tão importante. Parar de ser consumida de ódio por dentro, parar de relembrar de coisas sem solução.

Deus está testando a minha capacidade de permanecer sã?

Porque depois de homens limpinhos e brancos e desprezíveis, apareceu alguém.
m

Mas antes disso, uma observação sobre o machismo. O que tem me incomodado é a facilidade com que os homens me machucam e depois a facilidade com que eles aprontam todo o tipo de merda sem culpa. Sem culpa nenhuma, como se estivessem escovando os dentes, mostram o pau, traem, mentem.

É tão simples se esconder atrás do machismo. Mas e o custo disso para a sua vida espiritual? É só com isso que eu posso ameaçar os homens, mas ainda sem a menor esperança de causar algum efeito.

São mais de dez anos de sofrimento espesso, concreto, ininterrupto por causa de homem. Estou cansada.

Estou cansada ao ponto de chorar quando penso nas coisas que aconteceram comigo. Na facilidade com que os homens filhos da puta vivem bem.

Hoje eu vi que um dos homens filhos da puta que eu conheço é amigo de outro homem filho da puta. E os dois têm o mesmo defeito asqueroso.

É um defeito ... são homens brancos que tiveram educação e são cultos, mas não acham que devem respeito básico para uma mulher.

Saem ilesos, com suas reputações intactas. Mas são pessoas sem muita alma, pessoas pequenas.

O que isso quer dizer? Pode dar um exemplo?

São homens vazios, falta alguma coisa neles. E eu vou ser direta. Eu acho que falta amor por Cristo. O amor por Cristo faz um homem medir suas atitudes com outra régua. É o simples ame ao próximo mas ele está lá, a cada gesto.

Eu sei, com todo o estudo que eu tenho, que não posso contar mais essa história. Era uma vez um homem mau que eu conheci e me fudeu.

Eu mesma não aguento mais essa história, mas para um teólogo, isto seria apenas não cristão, reproduzir uma lógica de exclusão, uma violência, um jogo de bandidos e mocinhos.

Mas os homens fazem merda. Eles mentem e agridem as mulheres de formas absolutamente inimagináveis.

Exemplo: Dizer "eu te amo" e nunca mais te ver. Como essas coisas podem estar juntas?

Isso aconteceu uma vez comigo e até hoje eu não entendi o que aquele cara queria. Ele tinha acabado de sair de uma experiência espiritual comigo, ok, ele tinha passado por uma situação nova com a minha ajuda, ok. Mas e esse "eu te amo" dito no escuro de um quarto, depois de 48 horas de me conhecer, sem me olhar no olho? Quem são essas pessoas?

Depois um amigo meu me conta que ele tinha uma esposa que sustentava ele, que ele praticamente fingia que trabalhava, a esposa além de traída mil vezes estava sempre reclamando horrores dele. Que vida é essa?

Sei lá, daqui a pouco vou sair de um encontro sem ser estuprada e achar que aquele cara é super decente. Porque o critério tá caindo muito.

Ou eu estou mentindo, ou eu estou contando uma história que está presa na lógica sacrificial em que demonizo os homens e eu mesma preciso avaliar todos os tons de cinza dessas merdas, ou isso é verdade, os homens estão aí no rio de janeiro, aprontando horrores.

Comecei a conviver com um cara de vinte anos. Ele sempre conta um certo tipo de história. Ele sempre conhece uma garota que não é tão interessante assim porque é burra, ou porque é ciumenta demais, ou porque é totalmente sem noção. E ela sempre pergunta se eles estão namorando, e ele sempre diz que não, porque, afinal, ele quer ficar, quer transar, e a preocupação com o bem estar dele é maior e prioridade.

Se a menina está sofrendo, isso é pra depois. Isso deixa pra lá. Eu sei que ele mesmo sofre com a confusão que ele fica criando comendo esse monte de menina de vinte, dezoito anos de graça. Ele sofre, mas continua fazendo isso. E provavelmente vai continuar até os quarenta anos.

Isso de você transar com alguém que você só quer comer, precisa de amizade pra fazer isso e não ser canalha.

Esta é minha opinião hoje.

Tenho um amigo que sempre que a gente quer a gente transa. Já fomos namorados, não temos o menor ciúme um do outro, nem ressentimento, gostamos ainda do beijo e do sexo e do cheiro um do outro. Então quando a gente quer, dormimos juntos.

Ninguém sai enganado dessa relação. Isso pode durar anos.

Mas os caras solteiros gostam de fazer coleção de buceta. Fingem, a performance é a de um nobre, mas a vida espiritual da pessoa é algo como um apanhado de dicas que trazem apenas benefício para ele mesmo.

Me dá vergonha conhecer essas pessoas. Ter que dar oi para esses caras de novo. Ter que perdoar. Ter que reconhecer que eu os desprezei desde o início e fabriquei alguma paixão não sei de onde. Do sumo da falta.

Contra tudo isso, eu conheci um cara.

Um cara que eu sei que é bom, mesmo que ele não fale muito.

Nós estávamos numa padaria e meu cartão não passou porque eu tinha cometido crimes financeiros no natal e reveillon e tinha perdido a noção do quanto o banco não me ama tanto assim.

Foi o jeito que ele me olhou. Ele ficou triste por mim. De verdade. Ele se importou.

Depois ele contou uma história sobre os pais dele, que ainda estão juntos e sobre a mãe dele fumar e o pai dele brincar de pegar o isqueiro dela. Mas ele contou isso de um jeito que ele não era mau por pegar o isqueiro, era só uma brincadeira que aparentemente durava anos, e de repente eu comecei a ficar com vontade de chorar e ele também.

Assim, naquela simplicidade de palavras, ele descrevia um casal que se amava.

Porque se por um lado tem caras que tentam forçar sexo e não sabem abrigar uma mulher numa noite de chuva sem querer que ela pague a hospedagem com sexo, homens que não sabem dar um teto para uma mulher no meio da noite sem forçar o sexo mil vezes, sem colocar o pau pra fora numa mistura de exibicionismo e maldade, há outros homens.

Há esses homens que vão viajar para te encontrar mesmo sem saber o caminho e que vão te contar uma história de amor.





Thursday, January 11, 2018

Deixe-me subir




Eu queria escrever sobre segredos. Mas esta é a dificuldade. Acho que ter leitores conhecidos dificulta a minha escrita.


Há muito para contar e faz muito calor. Mas este é um recomeço.