Friday, March 17, 2017

Eu não quero mais brincar de mestre e escravo



Estou lendo um artigo para a tese e encontro a seguinte frase:"As the lover, each is a slave; as the beloved, each is a tyrant"

Eu não quero mais brincar de master and servant, eu não quero mais ser a "apaixonada escravizada" nem a "mulher amada tirana".

Eu não quero mais esse jogo.

Mas ele continua acontecendo, milhares de vezes, no trabalho, nos encontros, nos livros que leio e nas teorias que eu estudo.

E eu não quero mais brincar disso.

Não quero mais.

Thursday, March 16, 2017

você vai ter que ir sozinha



Lorena olha através da câmera para Bruno.

Atrás dos olhos dele é possível sentir um desconforto invisível. Seus olhos estão se movendo no céu sem estrelas.

Os olhos de Lorena também estão manchados, esvaziados de cor. São olhos tristes. A tristeza passou por ali e deixou uma assinatura na retina, riscou seu nome e deixou uma sombra.

Estes são lugares onde ninguém pode ir, o avesso dos olhos de alguém, o centro do coração cheio de bolor.

Há tantos segredos que Lorena gostaria de contar para Bruno, arrastar, puxá-lo pelo braço para ver o mundo que ela vê, os animais se manifestando, a luz do sol entrando no quarto e também a luz, até a luz da tarde era uma prova e uma companhia.

Cada palavra sobre Deus soa cada vez mais odiosa. Como contar de uma viagem para a Europa, não tem a menor graça para quem não foi.

É assim. Aquela mulher à sua frente, cheia de si, bonita, inteligente, colecionando mentiras, fantasias e projeções sem o menor fundamento, expressando o castelo de cartas de uma carência antiga, não faz nenhuma das suas veias tremer.

E com certa elegância ele arranca toda essa planta que não vai mais crescer do meio deles, essa planta que já está morta.

Não tem resposta, não é nada do que você fez ou é, essas coisas que a gente não controla.

Para este lugar que é a sua vida agora você vai ter que ir sozinha.

Para a sua defesa de tese, para a sua morte, para o seu quarto antes de dormir, para todos os minutos que sobram dentro da sua carne você vai ter que ir sozinha, dar essa aula, trabalhar hoje, falar com seu chefe e pedir desculpas, escrever de madrugada e voltar a gostar de si.

Acreditar que você vai continuar a pesquisa.

Dormir, correr até a dor passar.

Para todos esses lugares você vai ter que ir sozinha.

Isso me lembra de um milagre muito bonito que eu ouvi uma vez de uma psicóloga que estava há muito tempo separada do marido, e era algum dia muito difícil porque ela estava andando sozinha por uma rua comprida e arborizada de Belo Horizonte, e essa dor era tão forte que parecia trincar todos os seus ossos.

Mas no meio do caminho, ela escutou uma voz dentro da sua cabeça que disse com toda a clareza 'Você não está sozinha', e ela começou a chorar e sentou e chorou chorou e chorou na calçada de alívio.

E quando ela se levantou, duas borboletas começaram a segui-la no caminho.

Porque Deus quando está chegando ele traz os animais com ele, as borboletas, os pássaros, os grilos, os gatos e os cachorros.

Deus assina sua presença assim, com a luz da tarde, com o cheiro de flores, com o vôo dos pássaros, com o silêncio, e até com as palavras claras e honestas de alguém que acaba de dizer que não te ama.

Deus está aqui, no coração que se machuca mais uma vez e continua vivo, no coração de uma mulher escrevendo sozinha perto da favela, ouvindo um tiro seco no meio da noite.




Medeia matou os filhos por causa de um fora (?)



Meu pai disse outro dia que cada dia é um enigma a ser decifrado.

O enigma de hoje dói muito. Não é só o enigma de não ser amada por Bernardo, porque você não pode forçar um cristão a ser feminista, ou um cara de esquerda a acreditar em Deus, ou um homem se apaixonar por você.

Mas essa coincidência de ter ido assistir uma aula sobre Medeia e chegar em casa e tomar um fora exatamente como ela, essa coincidência guarda uma chave, uma chave que daria um livro.

Os escritores negros dos anos 1970 nos Estados Unidos, o pessoal que fazia arte em bares, declamando poemas ao lado de um músico que tocava saxofone, inventando coreografias com meia e polaina, black power e fúria, alguns deles sabiam que a palavra é mágica.

A escrita é profética e a palavra é mágica. Qualquer idiota da auto-ajuda e da programação neurolinguística vai dizer que segundo a física quântica, tudo o que falamos fica plasmado.

Qualquer avó do interior tem essa sabedoria da palavra. Os feitiços são feitos com palavras, as orações, os sacramentos.

As leis, a poesia, que é nossa forma de não degenerar completamente.

As bulas de remédios, os bilhetes para seu grande amor no colégio, tudo o que é importante passa por essa dimensão aqui, está escrito.

E hoje algumas pessoas se encontraram no Rio de Janeiro para discutir o que aconteceu com aquela mulher do mito, e da peça, e das peças, das diferentes versões de Medeia, Eurípedes, Sêneca, e a psicanalista, a aluna girardiana, a professora, o médico que apareceu naquele dia porque estava procurando o sentido da vida e percebeu que escolheu a profissão por causa do pai, as senhoras inteligentíssimas que não são mais psicanalistas graças a Deus, a psicanalista que virou artista plástica, a moça atenta que também fez letras, e a mulher que trouxe o filho.

Estamos ali discutindo o que aconteceu com Medéia.

E depois eu chego em casa e o meu Jasón me escreve, me escreve com a clareza de quem quer apenas se livrar de uma bagagem pesada, que não está querendo nada comigo nem vai querer nada comigo nos próximos séculos.

Eu não assassinei meus filhos, não fiz nenhum feitiço, eu só escrevi e me debati contra essa despedida que foi tão suave.

Não sou uma mulher grega, não sou uma mulher romana, posso casar, posso me separar, posso votar.

Mas por um minuto eu e Medeia fomos a mesma mulher.



Não sei se eu escrevo sobre os olhos do padre ou sobre o Bernardo



Os olhos do padre estão cheios de coragem e de uma certa felicidade cristã, a felicidade das pessoas que pararam de condenar os outros.

A felicidade das pessoas que estão recebendo a graça.

O padre falou sobre pessoas que não comem a hóstia e que estão cada vez mais cheias de graça. E isso é uma das coisas que acontecem na igreja e ninguém fala disso, se é para falar da igreja as pessoas falam de inquisição e proibição de camisinha e de aborto, mas ninguém fala dessas coisas, da alegria nos olhos do padre, ou da graça que as pessoas vão recebendo ao longo dos anos.

Uma vez um amigo meu parou a reunião da igreja e foi cumprimentar um amigo. Depois ele voltou para a reunião e começou a chorar.

Ele disse que esse amigo tinha perdido o pai recentemente e que ele estava impressionantemente bem, inteiro, sabe, resolvendo as coisas da vida sem se abalar tanto quanto se esperaria.

Esse tipo de coisa que eles chamam de graça. Quando a viúva do morto está mais forte do que os parentes do morto e pode consolar todo mundo.

Quando uma velhinha analfabeta vira uma santa.

Essas coisas que eles chamam de Mistério e que ninguém conta para quem está fora da igreja. Olha, os padres têm uma alegria estranha, um entusiasmo sem fim, e eles não são chatos, eles são pessoas simples que te olham no olho, mas o olho deles está sorrindo.

Não sei se escrevo sobre os olhos do padre ou sobre o Bernardo.

Bernardo, eu desejo para nós esse tipo de graça. Que a gente fique cada vez mais cheio de alegria e que as pessoas percebam isso e comecem a amolecer junto e a fazer bondade para nós por contágio.

A história que o cristianismo nos impede de contar




Existe uma história da carochinha que todo mundo gosta de contar. Ela é a seguinte: "Eu sou muito legal, Fulano é muito idiota e fez tal coisa comigo."

É essa a história que o cristianismo nos impede de contar. Depois de entender que somos todos pecadores e de rezar "Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" muito pouco tempo de reflexão é necessário para você começar a perceber que essa é a história que você conta sobre si para os outros todos os dias.

O problema de contar essa história é que você não é um poço de inocência e o outro a fonte do pecado, então logo a sua consciência vai soprar alguma coisa no seu ouvido como "não foi bem assim."

E daí vem a culpa. E esse é o segundo problema, não viver contando sempre essa mesma história e sentindo culpa.

Mas às vezes você tem razão e a pessoa foi mesmo bem filha da puta. Aí, o cristianismo indica perdoar.

Então de novo você tem poucas saídas além de tirar muito sarro da pessoa e dar risada da situação e depois parar de contar a história de como você é bonzinho e o outro é mal e perdoar essa pessoa.

Nível 3 de cristianismo básico é que você vai ter que perdoar essa pessoa de novo, porque claro que ela não vai fazer uma cagada com você só uma vez. E aí, você vai ter que repassar na sua cabeça que 1) você não é o poço da inocência 2) a pessoa não é a fonte de todo o mal (com exceção pra psicopatas e outros filhos da puta mais sofisticados 3) você vai lembrar que não basta perdoar só uma vez, tem que perdoar pra caralho. Perdoar não só sete vezes mas setenta vezes sete ou algo assim.

Aí você começa a entrar na viagem mesmo. Se confrontar com a obrigação de perdoar as pessoas que te fazem mal.

E daí começam várias conversas que eu queria ter com o padre mas não tenho porque eu não sou o Clint Eastwood, não é sempre que eu vou na igreja e quando eu chego lá só quero abraçar o padre e chorar então eu também nunca puxo assunto.

Mas o padre sempre sabe. Ele sempre sabe que eu estou lá chorando por dentro e fazendo cara de paisagem.

Belas vinganças


O homem mais machista que eu conheço casou e teve uma filha.

Deus é sempre muito melhor nas vinganças do que eu.

Minha amiga que leva o cristianismo a sério






Esses dias eu hospedei uma amiga aqui em casa. Não uma amiga qualquer, mas uma daquelas pessoas que você conhece e pensa, bem em segredo com o seu coração, "Deus gosta de mim."

Acho que eu precisaria de muito cuidado para escrever sobre esses cinco dias mas o tempo está passando e eu tenho muita coisa para fazer e ao mesmo tempo eu não quero deixar de escrever sobre o que aprendi nesses dias. Então, sai medo, sai auto-crítica, vem verdade.

Eu não sou uma pessoa do interior, eu sou da capital e isso quer dizer que eu conheci muitas pessoas que queriam ser alguém, como eu também queria. O problema é que esse "ser alguém" quer dizer que as pessoas querem ser famosas e conhecidas por feitos que os outros admiram. Até aí, tudo muito humano demasiado humano.

Mas no meio da vida rumo ao estrelato você encontra muitas tentações e é muito difícil crescer sem matar um pouco da sua espontaneidade, e se dar bem sem aprender um pouco da malícia da vida, da malandragem, e no meio do processo, contrair pequenas bactérias como altos níveis de vaidade e um pouco de maldade e egoísmo.

Até aí também não estou falando de grandes temores. A questão é que essa amiga, que veio de longe, e do interior, chegou aqui na capital sem nenhuma vacina contra toda essa merda, ela chegou bem mais inocente que a Madame Bovary.

Ela chegou aqui conservando sua forma infantil, seu espirito de aventura, um costume com a bondade que vem do Espírito Santo.

Ela chegou aqui com uma mochila cheia de filtros de sonho e pedras e incensos, magias de gente velha do interior, educação mais fina do que a parisiense e doçura mais estúpida do que açúcar refinado.

Ela chegou aqui e se apaixonou e o coração dela foi trincando em micro pedacinhos de tristeza, levando choques de desprezo, tomando baques imensos de mentiras e falsidades e a inteligência dela foi obrigada a conhecer a malícia nova, a esperteza nova, a maldade nova e a manipulação nova daquelas outras pessoas que nasceram na cidade e que não tem muito compromisso com consciência moral e amor às mulheres.

Mas aí é que vem a parte mais louca. Ela conseguiu perdoar tudo e não se perverter. Ela continua pontual, continua só indo na casa das pessoas se for convidada, continua trazendo presentes, dividindo a conta, pagando mais para mim se eu tiver com menos dinheiro, querendo lavar os pratos depois do almoço, me comprando uma pulseira se ganhar um brinco.

Ela continua com uma memória furiosa e com uma atitude vigilante, ela continua sem pegar todo esse universo de pequenas corrupções morais que a cidade promove e renova todas as madrugadas.

E mais. Ela não prega sobre nada. Ela nunca fala de cristianismo. E quando ela fala de Jesus, ela diz que ele é como um brother. "Jesus e eu temos uma parceria, ó, ce sabe".

Nenhuma das personagens que eu encontrei nos livros é tão bonita quanto ela. Às vezes eu encontro palavras para dizer que ela é muito bonita, não só no corpo, não só no espírito, ela é toda bonita, toda frágil e forte, ela se parte em pedaços e volta à vida, e não deixa a alegria no abismo. E quando eu falo essas coisas, ela chora.

Às vezes ela me lembra o Peter Pan ou uma Amazona, às vezes ela me lembra um animal silvestre ou uma sacerdotisa, às vezes ela me lembra aquelas mulheres velhas que conhecem os segredos das plantas, ou aqueles moleques do interior que sabem montar arapuca.

Sentada aqui no quarto, almoçando macarrão, ela arregala os olhos e comenta os livros que eu tenho na estante, e eu explico sobre o que fala cada um deles. São livros sobre teoria cristã com títulos assustadores e maravilhosos inspirados em trechos da Bíblia.

Mas o que eles estão dizendo ela está vivendo faz tempo. E ela me ensina muito mais do que eles.

Meu coração não aguenta esses segredos e é por isso que eu escrevo.

Não posso ser a única testemunha de uma vida assim.




Os três homens na minha vida hoje



"Três homens em conflito"
Ilustração Marytinwe
Aqui

Há três homens na minha vida hoje. Os três são escritores.

Nenhum deles me ama, mas estão todos gravitando ao meu redor, tentando adivinhar a sombra que os astros desenharam sobre o meu nome quando eu nasci. Tentando adivinhar a essência do meu perfume, ou se é o cheiro do desodorante a doçura de pêssego, laranja, mel ou abacaxi, as flores do campo em Israel ou na Espanha.

Marco

O primeiro é um homem de confiança e um escritor quieto que sabe escolher palavras bonitas e retira inspiração de pequenas surpresas que ele escuta e percebe da janela do quarto, entre uma viagem e outra, sentado na praça olhando as crianças. Ele é com certeza um homem para casar, o porto seguro, a força em todos os sentidos. Ele sabe que a delicadeza é a firmeza de um homem tanto quanto seu braço ou sua inteligência.

Seu corpo é firme, bem firme mesmo, não é musculoso mas não é flácido, ele é todo proporcional, sem gordura nenhuma, um corpo discreto, não muito grande, não muito pequeno. Ele tem o cabelo cortado rente à cabeça e um aspecto limpo, o tipo de cara que nunca vai vestir uma cueca velha ou uma meia rasgada, e que evita palavrão.

Dos três, ele é o único que inventa outros nomes para me chamar, às vezes ele me chama de anjo, às vezes de querida, é sempre alguma coisa que não tem nada a ver com cidade grande, vaidade, pecado ou sexo. Ele tem jeito de homem do interior, o tipo de cara que nunca vai se esquecer da própria mãe e que não vai deixar de acreditar em Deus.

Tenho medo de não ser suficientemente inteligente e não enxergar o quanto Marco é perfeito. Perfeito, doce e livre de vulgaridade. Engraçado que ele sabe que ele não tem o brilho dos outro escritores, mas ele não quer abrir mão de como ele é, não quer vender a alma para ficar mais interessante para uma mulher. Ele prefere a simplicidade em sua forma furiosa e eu gosto disso. Eu sei que ele ama Drummond.


Henrique


Henrique é o príncipe. Henrique é o prêmio, é o tipo de cara que pode abrir uma garrafa de vinho branco e usar uma camisa de linho em qualquer lugar e que se estiver de bermuda e chinelo na Vila Isabel, vai conservar uma elegância violenta no rosto, que poderia ser confundida com empáfia porque causa uma certa raiva misturada com inveja.

Henrique é o dono do iate, mas é também o cara que vai se demorar um pouco mais olhando para o meu rosto e para a curva do ombro de uma mulher quando estiver tomando um café na mesa de fora.

Não sei por onde passam suas maiores alegrias nem o que ele esconde no porão, mas ele me prende, reaparece nos meus sonhos, e me dá a sofisticada alegria de invejar seus livros, a construção imprevista de uma frase, um tom de voz macio que me dá vontade de acordar com ele no sábado.

Maldito Henrique com seus poemas ingleses e sua furiosa recusa em ser medíocre. Henrique não repara no estilo de uma casa porque disso pode destacar alguma poesia do cotidiano ou alguma reflexão sobre a história do país, não é o estilo da casa que vai dizer um pouco sobre o Brasil ou sobre a fugacidade do tempo e o absurdo da vida.

Henrique olha para aquela casa e enxerga a decadência da alma na escolha infeliz de colunas gregas que não deveriam estar ali e se revolta, sente um comichão de ira atrás da orelha, quer bater naquele arquiteto, quer destruir aquele erro tático, mas estará pronto para contemplar o desenho das pernas da dona da casa enquanto ela desce as escadas, e as curvas que o vestido estampado estão fazendo quando as flores se alongam no vai e vem dos joelhos.

Por muito tempo Henrique esteve rondando o meu coração, fumando um charuto no quintal do condomínio onde moram os melhores escritores que eu conheci. Mas eu tenho medo dele. Tenho medo do quarto com demônios que todo escritor guarda muito bem guardado. Pelos demônios dos outros nós mulheres também precisamos sentir uma extrema simpatia.


Bernardo

E Bernardo é o escritor que não está apaixonado por mim. E que não vai se apaixonar por mim.

A vida é simples e dolorida assim também. Sem ficção.



Tuesday, March 07, 2017

Primeira carta com dor na garganta



Ilustração: Mariana Cagnin


Se a dor saísse. Se eu pudesse voltar por uma porta e ser que eu fui. Uma pessoa virgem dessa dor. Sem a consciência de que eu era muito feliz. Sem saber que eu estava viva e sentindo a vida chegar e correr por todos os meus poros.

Ou se eu pudesse abrir as mãos e te mostrar os cacos de vidro e os retalhos de pedras pontiagudas que eu levo no bolso.

E tudo virasse um punhado de castanhas para a gente comer ou bolas de sabão para o vento soprar na praia de copacabana.

Esta é minha primeira carta com dor na garganta. Ninguém merece isso, esse tom ginasial, esse punhado de lamúrias doces cifradas, que não são suficientemente descritas para causar algum efeito real nem suficientemente escondidas para causar alguma sensação melhor.

Esta é a minha primeira carta com dor na garganta.

Não ouse escrever sobre mim do jeito que você escreveu sobre suas outras mulheres, com essa violência estranha e atenuada que eu não conheço.

Queria pelo menos que você preservasse a memória de tudo o que você não sabe sobre mim, que pelo menos você escrevesse sobre esse lado que só você viu sem que pareça um cientista do século dezenove dissecando um sapo ou a minha psique.

Porque agora que eu estou escrevendo sobre você eu sei que eu preciso derramar as palavras mais delicadas, mesmo que eu não saiba mais o que é delicadeza.

Você me inspira te dizer que eu te amo, me inspira esmurrar os seus ombros até a dor sair, me inspira te acordar beijando a sua cara toda.

Você me inspira quebrar todas as distâncias do corpo, porque o namoro é essa disposição informal para encontrar todos os encaixes.

Deitados na cama, ou de mãos dadas, ou beijando, ou sentados um perto do outro.

Quando você está perto do meu corpo e você encontra esse jeito de passar a mão sobre o meu joelho e ficar alisando a perna, quando você diz que gostou dos meus óculos, quando você para antes de abrir a porta para se despedir de mim com um beijo e você me dá vários beijos.

Esse tipo de coisa que poderia não ter acontecido mas aconteceu fica gravado na pele dos meu dias depois.

Deixa o verão menos pesado.



Antes da confirmação



Ilustração de Mariana Cagnin

Daqui


Esses dias resolvi falar sobre sexo com o pessoal da igreja. Sim. O desconforto dos orientadores só não foi maior do que o interesse do povo.

Sexo. O grande tabu. Descobri que a igreja não fala só sobre sexo para procriação. felizmente, tem outro tipo de sexo disponível, o "sexo para a união do casal."

Tudo isso depois do casamento. Se fizer antes, tem que confessar.

Há algo de incômodo em chegar no ouvido de um padre e contar que você transou.

E não posso negar que existe ainda a dificuldade de precisar sentir culpa sincera por ter transado.

Bom, culpa, eu tenho por cada coisa, culpa a gente arruma. Mas ainda assim. É incômodo. Eu vou ter que segurar o riso? Chegar para o padre e dizer, padre, "eu transei".

Essas coisas... essa necessidade de ir a fundo nas coisas e ao mesmo tempo não sentir o significado, isso acontece em vários momentos.

No último domingo eu fui à missa. E felizmente foi uma missa boa, mesmo que eu tenha perdido a parte que o padre fala o que ele quiser, que eu sempre acho a melhor parte.

O milagre foi que escolheram músicas bonitas e não aquelas músicas chatas e bregas com harmonias previsíveis e horrorosas que me dão vontade de gritar. Não, dessa vez escolheram bem as músicas. Isso faz toda a diferença. Impressionante.

E além disso teve uma homenagem a um coroinha, eu acho. É um cara que realmente é muito feio fisicamente, e ao mesmo tempo ele inspira confiança e carinho.

As pessoas da igreja vão ficando assim, com um certo ar de heroicas e carinhosas.

O padre novo olhou pra mim.

Ele sabe alguma coisa sobre mim. Mas eu não sei o que é.

E isso me faz pensar em todas as situações em que as pessoas olharam pra mim, na rua, na escola, no cursinho, no metrô.

As pessoas sempre me olham.

Até hoje eu não sei a explicação total. Sei que eu sou do tipo de pessoa que salta aos olhos na multidão.

Eu só fui entender isso quando comecei a dar aulas e a olhar para os meus alunos adolescentes.

Aí eu entendi como vários deles eram como eu, indisfarçáveis.










Thursday, March 02, 2017

Eu não quero ser sua personagem




My foolish heart

Budi Satria Kwan


"Grandes chances de aparecer um pierrô no seu carnaval", disse o astrólogo.


Todos os meus textos foram um ensaio até você. Tudo o que eu fiz foi esperar e escrever até que você viesse. E agora você é escritor e eu não quero ser sua personagem.

Se você virou meu personagem? Eu sempre escrevo tantas histórias, depois de um dia, depois de dez anos. Eu sempre deixo rastros aqui, sintomas, angústias, vexames, dias quentes em que eu volto a ser uma escritora alegre.

Mas não quero te transformar em um personagem qualquer e desinteressante.

E não queria que você escrevesse sobre mim com desprezo, não queria que você escrevesse sobre mim sem um pouco de cuidado, sem amor.

Não vou poder controlar isso mas não quero ser mal contada, virar mais um nome da fileira de mulheres que te destruíram.

Existe algo que a literatura não alcança? A literatura não tem a dimensão oceânica ideal para a vida.

Muita gente buscou Deus escrevendo e procura Deus estudando e lendo romances.

Mas Deus em sua louca complexidade nos deu uma consciência. A consciência sabe que palavras não são suficientes.

Escrevemos para o Pai. E palavras não são suficiente.

São apenas nossa brincadeira. Nosso amor. Nosso agradecimento.

Nosso lamento sincero e nosso lamento burguês e mimado.

Ou os momentos em que algo acontece e ficamos maiores, e o texto fica grandioso e sagrado e ninguém sabe como isso aconteceu.

Escrevemos arranhando a amplitude do amor.

Todas as graça esquecidas pela mente que a escrita retoma com elegância e humor negro.

Estou com muito sono.

E a resposta não está nos livros.

A resposta está na vida.

Os livros são só lamentos e cartas de amor para Deus e para mulheres distantes.







Saturday, February 25, 2017

Um escritor na biblioteca invisível de um sonho




As maritacas começaram a cantar, na verdade, a estraçalhar o silêncio todas juntas, compondo no ar uma algazarra frenética e inoportuna que desperta os instintos assassinos dos moradores do pequeno conjunto de prédios cinzas de três andares em São Paulo que lembra uma época pouco auspiciosa da humanidade.

Com essa vingança animal contra o sono humano, Suzana acordou mais cedo, nove e vinte, mas estranhamente disposta, e preparou um chá de erva cidreira e uma torrada com manteiga, sal grosso e alecrim. Tomaria o resto do chá fumando o primeiro cigarro da manhã.

A janela da sala dava para uma pequena mata no bairro do Butantã, que o melhor amigo de Suzana chamava carinhosamente de Boi Tantã. Havia um charme remoto naquela vista, quase um mistério. A mata recortada e imprevista no meio da cidade lembrava o tempo das excursões de botânicos, passeios da coroa, um trecho de romance naturalista, ou talvez as memórias de Elizabeth Bishop sobre o Rio de Janeiro.

Suzana era uma tradutora quieta que morava com dois gatos, um cinza e um cor de laranja. Odiava o próprio nome por causa da música. Sempre que alguém cantava "O Suzana, não chore por mim", ela pensava e respondia em pensamento "eu não choro por ninguém, seu filho da puta."

Afastou essa lembrança ruim com a fumaça azul do marlboro light e abriu o vidro da janela para sentir o vento frio no pescoço. Amarrou o cabelo e o vento passou quase como um beijo na nuca. Vestia uma camiseta regata azul clara e um short de dormir que caía bem mole na bunda e que ela só usava quando estava sozinha ou quando queria expulsar alguém da cama - aí ela ainda descia o short até depois do umbigo evocando aqueles bêbados sem vergonha e barrigudos.

Dali do alto, alguns seres humanos muito dispostos começavam a correr ao redor da praça, senhoras vagarosas com seus porta-niqueis iam e vinham da padaria onde os primeiros bêbados já se arriscavam a falar alto e brincar com os atendentes.

O vai e vem do mundo, das moedas e olhares, das nuvens e das chuvas, e o sol abrindo entre a massa celeste de branco e cinza começou a aquecer as copas das árvores. Entre um limoeiro, um arbusto e a horta toda cercada que os vizinhos tinham organizado para colher salsinha, manjericão e cominho, o olhar de Suzana parou em um ipê amarelo e começou a viajar no tempo.

O sol batendo naquela árvore trouxe a lembrança de uma noite perdida em um passado distante.

Há muitos anos atrás, Suzana estava começando a traduzir seu primeiro romance em inglês e tinha sido convidada para um jantar com escritores, tradutores e jornalistas. O escritor mais bonito de todos estava sentado no balcão da pizzaria, com aquele olhar de ressaca, de quem é rico e nunca tem pressa para entrar ou sair dos lugares e Suzana, que era muito atrevida, sentou ao seu lado.

A luz do lugar era muito fraca, amarelada, havia tábuas de madeira e taças que brilhavam refletindo o amarelo das luminárias e foi ali que o escritor mais bonito de todos parou o olhar, sorriu um sorriso doce e disse "eu te vi passando na rua outro dia."

Quando ela virou para sorrir, viu seu rosto pacífico, um sorriso de férias, as luzes amarelas cintilando em cima de sua cabeça, refletidas nas taças penduradas do bar, e ao fundo, um ipê amarelo colorindo a rua, deixando o momento estupidamente romântico.

"Me disseram que quando a gente encontra uma pessoa e ela não olha para a gente, é sinal de que ela precisa de nós por algum motivo."

"Acho que é verdade. Acho que eu preciso de você."

Todas as taças podiam ter quebrado, ou o coração partido. As velas derreteram, suas pernas soltaram-se do banco alto, a alça do vestido derramou no ombro, as luzes foram enfraquecendo, todos os objetos pedindo que eles se beijassem, que eles diluíssem seus nomes no mistério daquele momento, no calor, morno, das mãos de um escritor bêbado, na alegria imprevista de uma tradutora solitária.

A noite continuou. Suzana fugiu para sentar com outros amigos, e tudo correu bem, ninguém queria ir embora nunca mais, mas os garçons moravam longe e precisavam ir dormir, e olhavam para aquele bando de intelectuais com caras de tristeza, ressentimento e um ódio reprimido.

O escritor mais lindo do mundo ofereceu uma carona para Suzana que entrou no carro com movimentos bruscos por causa do vinho mas com algum comedimento por causa do medo de que um beijo fosse o suficiente para espatifar sua vida inteira, seu casamento, seu senso de segurança, sua auto-estima, apenas um beijo, de menos de quinze segundos, mas certamente destrutivo. Um beijo apocalíptico.

E assim foi. Suzana era casada no papel, de corpo e alma, nessa e nas próximas vidas com seu grande amor, mas aquela noite tinha sido perfeita demais, um punhal, um sorriso macio, uma taça de vinho e um beijo, um convite negado e a manhã deixando os objetos sem encanto, o estômago destruído, aos poucos, de café e de culpa e aquele desejo: uma grande falta de palavras que podia ser substituída por um abraço forte e insistente.

Às sete horas da manhã ela chegou em casa, de olheira, os olhos desesperados, cheios de horror, as mãos trêmulas, e não houve tempo de discussão e de respostas, só de correr para o banheiro e vomitar todo o jantar, todas as taças, todas as conversas, todas as bebidas, as palavras, vomitar ela vomitou sem o menor controle, só conseguiu correr até a privada, um surto de vômito e segredo e arrependimento misturado com sentido.

A água do banho não retirou a culpa e a ironia branda que usava no rosto mesmo sem perceber, em defesa própria. Ela queria fechar os olhos e esquecer, porque afinal foi só um beijo e não mudou o amor que sentia e que continuou sentindo por seu grande amor, foi só um beijo com sentido, muito menos sentido do que o amor que recebia e que perderia alguns anos depois com o casamento desfeito e Suzana morrendo até um esvaziamento que não poderia nunca ser traduzido porque tirou alguma coisa de seu corpo que poderia atender pelo nome de vida, ou pulso.

Mais de dez anos depois, Suzana acordou essa manhã com a histeria das maritacas, depois de um sonho em que encontrava o Escritor mais lindo do mundo em uma biblioteca. O sonho guardou aquela falha moral e não se beijaram mais, nem em seu inconsciente, não se beijaram mais. Mas estava frio e ela podia, no sonho, encostar a cabeça em seu ombro e sentir a maciez do seu casaco de lã.

A maciez das flores do ipê, do contorno das xícaras de café, a maciez nos cílios de um grande amor que se desfez, o desenho da fumaça, a espessura de uma trança de namorada, do rabo de um gato, e da lã, das nuvens e das folhas, a textura de uma pétala, a pele suave da nuca, de um rosto depois da barba feita, a maciez que se repete, o toque de um vestido novo que serviu muito bem e acaricia as coxas, a maciez de um nome querido na boca, essa tranquilidade na alma que um escritor guarda com ele, uma técnica secreta de escolher palavras, uma alegria delicada que escapa num olhar e fica gravada pra sempre, na pele, na escrita, sem chance de tradução.


Friday, February 17, 2017

eu me levanto




Eu me levanto antes que alguém venha segurar a minha mão

Eu sinto a nuvem escura chegando e parando no meu ombro. Um cachecol de nuvem ao redor do pescoço, invisível.

Eu sei quando está acontecendo de novo e a única segurança é que os amigos vão se afastar porque é assim quando você está nublando, ninguém espera o temporal cair.

Se as pessoas não suportam nem o próprio sofrimento, imagine o sofrimento dos outros.

Você quer afastar alguém? É só dizer que está triste. A pessoa automaticamente sai da conversa. Como se você tivesse uma doença contagiosa, como se de repente você desse azar e dali a cinco minutos com a sua companhia, alguma coisa ruim fosse acontecer.

A gente sente a tristeza do outro e se afasta. Ninguém quer gastar seu tempo com alguém que precisa desabafar, é como emprestar dinheiro, ninguém quer ouvir falar nisso.

Ouvir cansa mais do que tudo, mais do que ler, mais do que escrever, até mais do que estudar.

Preciso fazer de novo aquele feitiço pra mim, o feitiço de mudar a nuvem de lugar, soprar o pescoço, mexer o ombro, correr da nuvem, mastigar a nuvem, cair com a chuva.

Não gosto da ideia de ser auto-centrada e cismada com meus problemas. Mas este é o espaço do texto que precisa acontecer e se o que precisa acontecer é lamber feridas, que seja.

Só estou feliz que esse dia acabou.

Conheci dois homens bem diferentes, um de esquerda e o outro de direta, e no meio, cá estamos eu e a minha cruz.

É isso.

Quero me manter em movimento. Acertar as contas, parar de ser uma pessoa com dificuldades.

É óbvio que é chato.

Quero sair desse dia. Meia noite e quinze. Pelo menos já tenho essa desculpa do horário, o dia mudou.

O Rio de Janeiro é composto de céu e inferno.

Noites que são bonitas, com música, pessoas felizes, mas e essa tristeza no rosto dos músicos, no rosto dos garçons, só eu vejo?

Que inveja do pessoal da igreja que se ampara e vive cheio de cuidado.

Hoje um amigo me disse que todas as amigas dele que são feministas queriam casar e ter alguém que as sustentasse. A suburbana que mora comigo estava na cozinha fazendo janta e disse "amiga, mulher não quer casar e ter filho, quem disse? mulher quer ser rica, magra e loira."

Queria conhecer um cara mais inteligente do que eu, mais rico do que eu, mais calmo do que eu, um cara que fosse melhor do que eu.

E com quem eu pudesse conversar.

Outro dia passou pela minha cabeça escrever uma carta para Deus. Eu estou na merda então, porque carta a gente escreve pra quem está longe.

A verdade é que as pessoas que gostam de mim me tratam bem, me amam.

Meus pais são ótimos comigo. Minhas amigas também.

Mas eu estava lendo um livro sobre uma escritora insuportável e pensando que eu sou parecida com ela.

Eu gosto de amizades que se fortalecem até o excesso, mesmo que eu possa ficar muito sozinha, me divertindo, eu gosto de um tipo de amizade que é farta, um amigo que toda hora quer saber como eu estou. Todos os dias.

Acho a ideia de casamento bonita por isso. Alguém que está toda hora querendo saber como você está e não é seu pai e sua mãe.

Alguém que está te ajudando toda hora, te beijando toda hora. Meu Deus que coisa surreal. É tão maravilhoso e soa tão sufocante.

Há um exercício que as pessoas recomendam você fazer quando você está ansioso com algo, que é imaginar o pior cenário que poderia acontecer e perceber que você também vai poder lidar com ele.

Mas existe também imaginar o melhor cenário possível. Outro dia eu imaginei que eu tinha um filho. Depois achei que era pouco, imaginei que ia querer dois. Depois achei que uma família feliz tem mais de dois filhos, é mais agitada, então imaginei três filhos.

Daí era o melhor cenário possível e eu já estava rica morando com um marido e seis filhos.

Seis filhos era o cenário perfeito.

Nem eu mesma acreditei que eu cheguei nisso. E agora estou morrendo de medo de estar grávida.

Deus, eu não quero estar grávida agora no meio do doutorado. Senhor, misericórdia.

É muito desesperador você pensar que um filho pode começar a crescer na sua barriga sem que você queira ou tenha escolhido isso.

Mulher devia se aposentar com trinta e cinco anos.

Eu não aguento mais.

Eu não aguento mais a espera estranha e suas justificativas e condenações.

Achei que eu não tinha mais aquela voz que só me condenava, aquele juiz insuportável que eu chamava de Saturno, aquele pequeno inferno particular de listar meus defeitos, exigir sempre a perfeição, acabar comigo mesma com qualquer deslize, com um copo derramado.

Eu tinha saído disso e agora eu estou cheia de culpa e de raiva e de tristeza de novo e querendo nem ser eu mesma.

Mas o dia já mudou.

E eu quero estar livre. Deus, eu quero estar livre. Eu quero poder assumir que eu não preciso de filho, que eu não preciso de livro, que eu não preciso de nada a não ser a confiança metálica de quem entrega a vida nas mãos de Cristo.

Eu sinto a tristeza das pessoas que estão com saudade de Cristo e que só de você começar a falar de Deus elas abaixam a cabeça, como se fosse um assunto que terminasse mal.

É apenas uma boa notícia, é só isso.

Outro dia uma amiga me contou que frequentava muito culto e que os pais são muito devotos. Eu vi como isso deixava o coração dela tranquilo, como se ela mesma escutando essa história pudesse se aceitar, pudesse finalmente se sentir digna.

Eu vejo tanta coisa, tantos corações desesperados cometendo as pequenas violências diárias e a perturbação de não acreditar em Deus com serenidade. É tão doloroso. É dilacerante.

Às vezes eu queria dizer tanta coisa para as pessoas mas eu sei que não adianta eu falar, eu sei que pode causar mal estar, pode quebrar a confiança, a relação de autoridade, ou entre amigas, pode causar algum estrago no coração da pessoa, raiva.

Eu fiquei bem feliz quando essa amiga me disse que eu quase não falava sobre Deus, porque agora a verdade é que eu torço silenciosamente para que ela continue com Deus. Para que ela continue crescendo nessa percepção.

Outro dia a gente estava saindo da casa dela, e ela ia viajar. Já na porta do prédio ela voltou para conferir se tinha trancado a porta. Eu não falei nada mas logo depois que ela saiu ela começou a falar que a porta era fácil de arrombar e isso e aquilo. Daí eu disse "quando você for viajar, reza, pede Deus proteja a minha casa".


É difícil acreditar em algo que não se vê, então é melhor ver. Enxergar Deus dentro da vida. Em cada acontecimento.


Estou com saudade de viver milagres mais escandalosos, mas talvez isso seja só uma tentação.


O importante é se sentir abençoado, dizia um amigo meu.


Tecer o fio dessa paz que só se estica com o amor. O amor de receber uma pessoa chegando, o amor de se despedir direito de quem está partindo.

O amor de não reagir a um comentário ríspido com rispidez.

O amor concentrado nas entrelinhas, todos os dias, em todas as ações, o ato consciente que transforma a vida não em uma ação automática mas em um artesanato.

Essa disposição de amar que está crescendo em mim há alguns anos. E toda essa nuvem de tristeza pregada no corpo que não combina com o coração leve.

Todas essas órbitas e naufrágios, todas essas vitórias e risos silenciosos.

As roupas que eu visto, as máscaras que eu visto, as mentiras e as disparidades entre o que eu mostro e quem eu sou e o cansaço que se desprende dos segredos, das dores antigas, da vontade de ser abraçada.

Todas essas histórias mal contadas, todos esses rascunhos e tentativas, inteiros e sofisticados, e perdidos na trilha de uma vida.






Monday, February 06, 2017

nós dois



Jack Vettriano, não sei o nome.

Melhor casal.

minha vida está fritando



Sunshine and Champagne II, Jack Vettriano


Minha vida está fritando. A impressão é que alguma coisa saiu do ponto e a vida queimou, mas ainda está crua. Minha vida está crua ou está queimada, alguma coisa fora do tempo, a sensação de que o tempo está errado e de que os acontecimentos bons que mudam tudo já deveriam ter acontecido. Então devo estar bem perto.

Estou bem perto de um lugar onde a vida fica excelente e atinge um patamar nunca antes vivido, um estágio de paz onde não existe mais preocupação, apenas o sol, a pele se bronzeando e champagne.

Estou perto, só posso estar perto da vida excelente, da vida com champagne. Hoje uma amiga disse que queria tomar banho de banheira de ouro em Dubai, e comer sorvete e café com pó de ouro em cima. Achei absolutamente absurdo mas adorável o jeito dela, de suburbana sonhadora, olhando para a lua e desejando essa bobagem cósmica com toda a sinceridade de um coração alegre e machucado que ainda se dá o direito de sonhar com coisas esdrúxulas olhando a lua.

Sem saber ela me fez muito feliz. Eu disse que usaria salto alto de diamante, mas recusei o pó de ouro. Fiquei imaginando o ouro descendo pela minha garganta e eu sendo barrada na porta do banco depois.

O julgamento imaginário dos grandes leitores




Às vezes eu imagino o julgamento das almas cheio de burocracia, composto de várias instâncias.

Um dos julgamentos é a Deusa Mãe Terra perguntando quantas vezes você reciclou o lixo e se você já amou uma joaninha passeando pelo seu braço.

Há várias salas e a cada sala um tipo de juiz vai cobrar um tipo de falha que você teve na vida.

Existe uma Deusa vestida de farrapos e ela pergunta quantos mendigos você ignorou pela existência e se você não souber, ela sabe a conta exata.

São infinitas salas de vergonha.

Uma das Deusas cobra o quanto você estudou de política e ela faz isso nua, usando uma boina verde ou uma gravata conforme o caso.

Algumas cobranças são mais simples como o amor pelos animais e outras cobranças são mais complexas como o grau de aventura obtido na vida, quantas pessoas você amou de verdade, o quanto você aprendeu a cozinhar.

Essa cobrança é feita por uma cozinheira gorda de batom vermelho e avental justo e ela inspira muito tesão e vergonha em quem não sabe fritar um ovo.

Mas em uma dessas salas está uma mulher terrível, nua e de óculos de aro bem fino. E ela segura um chicote e está rodeada de livros. Ela é uma das Deusas mais temidas nesse purgatório clandestino da minha imaginação. É a Deusa que julga quem leu demais e depois da morte ela aponta todas as pequenas violências que os grandes leitores aprontaram com pessoas próximas.

É um acerto de contas muito triste para quem está ali.

Infinitamente triste. Mas necessário. Poucos sobrevivem de pé.

Thursday, February 02, 2017

Carta para Novo Amor número 99/1




Ilustração: Budi Satria Kwan


Você veio até onde eu estava. Eu sabia que seria assim. Sem esforço. Leve. Você veio até aqui e mostrou que seu coração combina com a sua voz, os dois são feitos de veludo e do silêncio de um lago no inverno. A quietude que sem esperar torna-se a pura entrega.

Vagando e vagando entre mensagens e posts e gravações de amigos e vídeos e convites para ouvir Raul Seixas no sábado você interrompeu todo esse fluxo de informação dizendo que me ama.

Estou aqui deitada nesse sonho de tudo o que pode ser e de tudo que pode quebrar, entre o nosso filho e a dor de te perder, esse meio do caminho que é tão lindo.

Um caminho cheio de folhas, parecido com um postal do Canadá que uma amiga me enviou há anos atrás e virou meu lugar secreto de descanso.

Meu coração te reconhece. Você é aquele tipo de cara que está apaixonado por Cristo e querendo fazer o bem, você vigia meus maus sentimentos e não quer se despedir de mim.

Muito tempo sem a pessoa que amamos cria uma falta tão espessa que ela toma a forma de outro corpo e eu não quero ser mais duas mulheres. Aquela que espera e aquela que encontra. Eu quero tocar aquele sentimento de ser abençoado que os casais têm e que algumas pessoas solteiras também têm quando estão se divertindo com a solidão.

Aos poucos eu criei espaço para você.

E agora o espaço entre nós é pequeno, é um círculo, não é mais aquele horizonte vasto e deserto cheio de súplicas e de sextas-feiras com o sabor da derrota. Todos os dias estão na linha do Equador, todos os meses estão ouvindo Mozart.

Todos os cantos do meu corpo estão felizes, secretamente felizes, cobertos pela memória da sua voz e pela vaga concretude do seu nome.

O seu nome causa um pequeno corte no coração, um sobressalto, um aviso, um sinal de que meu coração foi ferido e agora está doendo, cheio de vida e da incontornável percepção de que eu mudei.

Não somos mais os mesmos há uma semana, não temos mais um nome morno, esfriando com o passar do tempo.

Agora fomos convidados para o nosso casamento, agora cada dia é uma peça do quebra cabeça de duas pessoas que se amam, um jogo que vamos jogar sem pressa, finalmente sem pressa porque podemos passar todos os dias juntos, engordurados das nossas manias e desse amor horrível que vai crescendo e mudando até a temperatura das paredes, a cor dos nossos olhos, o que faremos e o que será escrito por nós quando estivermos loucos de saudade ou distraídos um do outro.

E tudo isso que é tão grande e que eu desejo para todo mundo.









a beleza das ideias certas não é suficiente




Uma ideia bonita pode ser um veneno. Uma ideia certa, uma ideia coerente e que tem sua grandeza e pode ecoar na alma de algum homem, mesmo essa ideia, uma rosa molhada pelo orvalho da noite, pode ser ruim.

A vida é cheia de curvas, a ciência de amar é cheia de curvas, as regras são o playground do demônio, ele adora quando os estudantes estão ficando formatados em suas leituras certas e em suas teoria certas, porque isso ainda não é humanidade, e toda essa biblioteca não vale nada quando essas ideias não são postas à prova e revertidas pela realidade, não a realidade como tal mas a realidade que se descortina apenas quando algum desses estudantes decide perder tudo.

Perder tudo, perder a beleza do castelo das ideias e das lombadas coloridas dos livros, arrumadas em degradé, perder isso. Perder a razão.

O diabo tenta o estudante apaixonado por Cristo e o estudante apaixonado por Cristo quer continuar enchendo a casa de livros, mas a casa precisa de amor, a vida precisa de vida, estamos nos desintegrando e antes que tudo acabe precisamos morrer muito.

Precisamos morrer muito antes de morrer. Esse não é um aprendizado fácil apesar de parecer bonito.

Porque afinal morte é morte. Noite é noite. Dor é dor.

A guerra cultural está acontecendo e a vaidade está aliciando os dois lados.

Felizmente o amor está aliciando os dois lados.

É preciso perder tudo sem a vaidade de perder tudo, é preciso amar a mulher sem a vaidade de ser bom.

Esse é um texto aparentemente moralista e cheio de regras. Mas ele está apontando para a mulher e a rosa. Ele está apontando para o raio de sol e todos os relâmpagos perdidos nas noites de estudo, ele está falando das pessoas que moram na casa e estão chamando esse estudante para um café porque elas só querem companhia para chorar enquanto ele estuda, no quarto, fascinado.

Enquanto o estudante se afunda em leituras alguém vira um santo, alguém apanha do marido, alguém é expulso de casa por ser gay, sua namorada sente saudade, sua mãe faz o jantar.

E o demônio sorri.

E Cristo também sorri.

mundo próprio




Eu sempre gostei de histórias de detetives. Apesar da palavra mistério ser muito ridícula. Tento ler o que foi desenhado para mim mas ainda estou na primeira página e o desenho está aparecendo no verso, todo colorido.

Como Deus quer que essa segunda parte da minha vida aconteça? Como?

Agora que não estou viva ou morta e consigo pisar nesse imenso jardim elétrico, a página branca, sem medo e sem dever explicações.

Uma vez o professor disse "você, que lê o Evangelho" e a sala inteira olhou para mim. Eu tive um reflexo de esconder o rosto com Shakespeare, quer dizer, com a peça que estávamos lendo na aula.

Eu.... eu hoje sou uma daquelas pessoas que "lêem o Evangelho", que chique. Mas eu já fui uma pessoa que diziam que cresceu sem religião. Alguém já falou de mim dizendo "ninguém reza à mesa na casa dela" e eu senti vontade de morrer.

O amor não é rezar na mesa da família se isso deixar as pessoas tristes. A ciência de amar as pessoas é cheia de curvas.

Eu me sinto estranha, misturando paciência com revolta e fervendo com tédio e amor.

Será que existe alguma resposta para o juri? Será que temos enquanto escritoras alguma obrigação de falar sobre Deus?

Devemos isso a quem?

Tenho amado sozinha um bando de homens que nunca se apaixonariam por mim mas que me amam, em segredo, com vergonha, às vezes até com tristeza, inveja e um tênue desprezo que sempre arrasa meus ombros. Mas isso tudo ainda é bonito.

Deixei como quem abandona uma casa caindo as pedaços um último relacionamento ruim.

E agora renascendo das cinzas eu conheci alguém que poderia ser meu marido. Tudo é fácil com ele, a conversa é fácil, a paixão pelos livros, as conversas longas que misturam arquitetura e a investigação do fascínio do rosto de Cristo.

Talvez eu tenha chegado no lugar mais importante da minha vida, esse dia em que decidi não me matar.

E talvez tudo apenas se torne muito mais macio a partir dessa recusa em morrer.

As grandes vitórias nem sempre são grandes marcos, uma grande vitória pode acontecer no meio da semana, em uma quarta-feira quando uma escritora não se suicida, em uma quinta -feira quando uma pianista sente que já pode tocar sem os demônios mordendo seu pulso porque simplesmente por um efeito de extrema vontade, de uma vontade feita do fogo invisível do fundo da alma que quer viver, esse fogo talvez tenha moldado um novo destino de luz.

Eu estou aqui, abandonando a sede de justiça, abandonando a vingança, abandonando a necessidade de corrigir mais um homem machista orgulhoso de pensar que o feminismo é marxismo cultural, eu estou aqui, sem agredir de volta um dos amigos que mais amei e que me ofendeu publicamente, eu estou aqui, sem gritar o grito da saúde do corpo, o grito da reivindicação por apoio e compaixão.

Uma das minhas amigas próximas está sofrendo há um bom tempo, carregando um desses fardos ruins de levar, um cubo de açúcar que não dissolve na boca e que fica ali, jogado para lá e para cá entre as frases, atrapalhando cada palavra, sem ser dissolvido, um quadrilátero de segredo, um pulso morto e frio que impede a fluidez do canto.

E quando ela estava a ponto de atirar esse cubo na cara da mãe dela eu disse que não teria o efeito que ela esperava.

É preciso ter um pouco de senso de realidade e não esperar muito das pessoas. Ter a inteligência de esperar compreensão apenas de Deus.

Do contrário são muito machucados na alma e não vale a pena.

Ela entendeu. Não tem a ver com silenciamento e não tem a ver com covardia ou conformismo. Não é um gesto moralmente execrável é apenas a quietude dos inocentes, o silêncio dos inocentes, o movimento das testemunhas que se movem ao lado de Deus em sua solidão heróica e secreta.

Eu ando ajudando amigos. Eu, que passei tanto tempo negando que precisava de ajuda. Agora eu estou aqui, melhor.

Isso é edificar a sua própria capela azul, no meio do mato, num terreno baldio, à noite, na esquina da imaginação, no seu mundo próprio.

Só os vaga-lumes beijam a minha face.

E agora esse homem que gosta de mim, falando comigo a voz dele se enche de amor. É invisível, mas eu consigo sentir.

Eu cresci e agora estou maior do que eu.

Eu poderia estar num livro que eu gosto de ler. Então está tudo bem.


Wednesday, December 28, 2016

O grito eterno



Estava lendo uma entrevista com Madonna em que ela diz que sei pai nunca comenta sobre o fato de ela ter se tornado cantora e famosa etc.

Para a nossa família há um certo status que demora para mudar, que talvez não mude mesmo com a mídia ou respostas e circunstâncias externas.

Mas um pouco eu acho que essa imagem balança.

Eu agora estou cheia de segredos.

As coisas estão acontecendo mas ninguém sabe muito bem como as coisas estão acontecendo.

E eu estou mudando de tamanho.

Eu sei que esse é o meu espaço e a minha escrita mas eu estou mudando de tamanho.

Percebi isso hoje quando consegui não aceitar duas ideias da minha mãe. Não foram duas ideias rebuscadas e complexas, apenas duas ideias erradas que eu sei que estavam erradas e que eu consegui refutar. Minha irmã não tinha pego o caderno da minha mãe que ela estava procurando. Eu sabia disso. Eu sei que a gente perde uma coisa e acusa outra pessoa só para ficar mais fácil. Um bode expiatório que agora colocou nossos óculos em algum lugar. Um duende. Nem que seja um bode expiatório tão pequeno quanto um duende.

A outra ideia que refutei foi sobre uma coisa ruim que não tinha acontecido. Eu sei que a amiga da minha mãe chegou bem em casa. Embora ela estivesse armando aquele pequeno circo do terror ao redor de hipóteses de fulana não me respondeu, eu vou ligar, enquanto eu dizia espera um pouco, ou liga de novo, até que a amiga finalmente depois de mais dez segundos respondeu e tudo se resolveu.

Esses medos que me assombraram a vida, os medos da minha mãe, eles não são os meus. Temos medos em comum mas há muitos medos diferentes. E alguns não são meus e eu estou devolvendo delicadamente.

Os temas da minha escrita são o mal e a existência de Deus. Temas derivados disso são a arte como um caminho para não enlouquecer...talvez...a escrita como remédio, auto-conhecimento...e finalmente o aprendizado da alegria para que eu chegue na religião e de novo em Deus.

Então é isso. E me passou na cabeça hoje escrever sobre arte e literatura, mas também me passou pela cabeça que preciso fazer meu livro.

E também pensei que não posso deixar escapar o quanto eu procurei a Deus, o quanto Ele me chamou ou esteve por perto.

Simplesmente essas são as melhores histórias, as histórias de amor por homens ridículos e as histórias de amor por Deus.

Ok, e meu terapeuta mandou dizer, e as minhas histórias de amor por mim mas isso é muito brega.


Estou sentindo as coisas dentro de mim mudando de tamanho. Sinto a alegria tomando conta do silêncio.

Não posso dizer mais nada.








Monday, December 19, 2016

A última carta de amor que escrevi




Sete e pouco da noite, na universidade, dentro da livraria.

Esta é a minha primeira carta para você, porque estou um pouco feliz com a folha em branco que estou deixando escrita agora e que você começou a perturbar com o seu jeito discreto de quem não quer incomodar mas quer aprender um pouco com os papéis que encontrar nas minhas gavetas e ontem eu estava pesando sobre como é bom ser conhecida por alguém que está chegando na minha vida sem pressa e sem o desinteresse daqueles cachorros gordos de suas próprias certezas que perderam o melhor dos cachorros,a febre alegre e divertida do amor fiel que se deslumbra com qualquer notícia que venha dos lábios de uma pessoa amada quando ela ainda não pisou no centro do palco mas cantando da cochia já estraçalha o nosso coração inteiro.

O nosso coração inteiro vai estar presente em nosso encontro de xícaras em uma das livrarias que também é a sua preferida nessa feliz coincidência que você ressaltou e que fez carinho no meu ouvido.

Todo o universo em seu equilíbrio de mistério e todos os deuses mais extravagantes e os deuses mais tranquilos se juntaram para equilibrar nossos nomes nesse móbile frágil que é um presente e está se desenhando como um futuro, eu espero, doce como grãos de açúcar e delicado como as folhas de uma tulipa que acabou de florir em alguma montanha.

Se você não gostar da alma de uma pessoa, não vai poder amar e suportar as suas meias e aquela sandália havaiana que você odeia.

Uma vez um namorado meu descobriu que eu não gostava de uma camiseta dele e nunca mais usou, pior, fez dessa camiseta um pano de chão. Eu acho essas coisas erradas tão certas. Eu não trouxe o telefone e estou louca para saber se você gostou dos meus textos e se você vai me amar mesmo quando eu estiver com mau humor de fome ou menstruação.

Eu só queria que os seus olhos fossem mesmo castanhos e que você conheça uma parte de mim que me assusta, que é tão bonita e tão elétrica quanto um filhote de coelho ou um diamante de fogo.

Eu estou querendo te beijar e me aproximo de você com uma timidez que reúne, como diz o Borges, todas as minhas idades, todas as minhas súplicas, as noites de abraçar travesseiro, e de não saber qual será o sabor do seu nome na minha boca quando ele já tiver sido repetido muitas vezes e continuar tranquilo como praia, macio como uma janela penteando meu cabelo com o vento de um dia em que eu acordo feliz feito criança, menina das meninas, reinando no castelo que é a nossa companhia.

Entre narcisistas e melancólicos





Sunshine and champagne, Jack Vettriano


Se você quer ser um homem interessante, seja um homem normal, discretamente alegre. Seja macio(não faça academia) e doce (carinhoso de alma), mas não seja narcisista ou melancólico. Já temos homens chatos demais por aí.

Nesses tempos infelizmente eu caí no bom e velho erro de sair com pessoas não tão interessantes assim, mas quem sabe amáveis. Eu não tenho mais idade para esse tipo de cara que se acha o máximo nem para esse tipo de cara que tem uma vibração tão baixa que se você abrir o guarda-roupa dele só vai ter um monte de roupa sem cor, azul marinho, meio suja. Ah pelo amor de Deus. Faz essa barba.

É tão broxante a pessoa ser narcisista. Mas claro que ela não percebe isso, para o senhor Campeão de Tudo eu é que estou diante do imenso privilégio de estar na presença de um integrante da realeza humana. E para o melancólico, estou tendo o privilégio de ouvir suas sagradas lamúrias. Um diz que já viu de tudo e já sabe de tudo mais do que eu e o outro diz que já fez terapia e me deixa muito tentada a perguntar por que então ele ainda não é feliz. Falta de Deus?

Narcisismo, melancolia, é tudo uma grande falta de charme, de experiência e de curiosidade, e é tudo falta de Deus.

Deus dissolve a ilusão do quanto somos interessantes, Deus nos deixa ridículos e necessitados, gratos e contentes.

Não tem nada a ver com a energia de te avaliar como se você fosse uma candidata do Bachelor ou uma mulher a ser vencida em um debate.

É estranho porque eu já não sei se é pecado tentar amar pessoas que são desinteressantes a ponto de me agredir emocionalmente com essas doses cavalares de vaidade e depressão.

Será que é pecado insistir nesses encontros?

Será que é possível amar essas pessoas a distância?

Amar a distância, como quem ama um animal machucado do zoológico, alguém que tem uma voz irritante e trabalha na mesma sala que você. Uma criatura que nunca vai me enxergar, que nunca vai me entender, e que vai se desinteressar por mim depois de uma, duas ou três experiências de quebra de expectativa, ou depois de ser confrontado em uma conversa. Essas pessoas que não me encantam, é preciso amá-las?

Mas se é preciso amá-las, pode ser de longe?

É justo dizer para esses caras, olha, eu estou tentando te amar mas você não está me ajudando?

O povo da igreja com certeza diria que não, que esse não é o caminho. Mas e se a igreja fosse cheia de papisas velhas e divertidas, o que elas diriam sobre essa dificuldade de amar homens desinteressantes?




Desde que eu saí de São Paulo



Her secret life, Jack Vettriano


Eu nunca gostei de São Paulo. Eu sempre gostei das pessoas que moram em São Paulo. Nunca foi a cidade. Nunca foi um lugar que eu senti que gostava de mim e que me acolheu. Sempre foi um lugar feio onde eu fui muito triste e muito feliz. E também nunca fui como os meus amigos paulistas que chegam da praia dizendo "que saudade da poluição".

Mas desde que eu saí de São Paulo as conversas mudaram. São Paulo doa a quem doer é um lugar onde as pessoas conversam e são suficientemente contemplativas.

No Rio, se você tirar a praia, não existe isso. Não existe contemplação. É muito calor, é muito tiro, não é uma cidade onde alguém pode sair despreocupadamente na rua e ficar quieto sem que apareça alguém e dê um palpite na sua vida, sem que você tropece ou passe raiva.

Um dia eu fui beber uma cerveja sozinha e levei um livro para estudar. Era de tarde, uma parte tranquila da cidade pelo menos naquele horário. Um homem sujo e barrigudo passou por mim gritando "Olha foi assim que eu criei essa barriga, cervejinha à tarde". Paralisei meio de ódio meio com preguiça de responder. Para essas horas, só uma arma funciona.

Mas é isso. Nâo é um lugar contemplativo. E isso faz falta. Quase todas as calçadas fedem a mijo e são desniveladas, é sempre perigoso, e sempre tem alguém querendo saber da sua vida. Um dia eu estava de sutien na sala e o pessoal da favela da frente jogou um raio laser verde lá dentro da sala só para avisar que estavam se divertindo. Você não tem um segundo de privacidade. Não existe privacidade. A proprietária da pensão onde eu estou morando me mandou um whatsapp quando me escutou chorando no quarto.

Você vai tomar um simples chopp e pergunta se tem alguma cerveja Ale no cardápio. Depois de perguntar pela terceira cerveja ale, o garçom te diz assim, com ares confessionais de um poeta "olha eu vou ser sincero com você, nós vamos tirar esse cardápio em breve". O que é equiavalente a ter dito assim, "nada do que tem aí é verdade".

Eu fui cortar o cabelo e escuto um cabeleireiro contar que uma mulher foi lá, fez o cabelo, depois deixou a bolsa e saiu para comprar um sanduíche e nunca mais voltou. A todo e qualquer momento você cai em um golpe ou escuta falar de um golpe. Daí você aprende que fora de São Paulo as coisas têm a sua própria lei e essa lei é te enganar. Apenas isso.

Uma vez eu tentei reagir e ir até o fim, tentei ligar para todos os números possíveis para denunciar um motorista que não parava no ponto. Eu estava enfurecida porque era o ônibus que vai para a rodoviária e eu tenho um problema de coluna e não podia ficar muito tempo com a mochila nas costas esperando o ônibus. Quando finalmente algum dos ônibus que vão para a rodoviária parou para mim e eu reclamei, o motorista disse "eu sou o único que pára." Quer dizer, aquele era o ponto, mas ele é o único que pára no ponto. Porque aquele ponto tem uma certa propensão para ficar cheio de ônibus então ninguém se dá ao trabalho.

Em um dos meus primeiros almoços em buteco, minha amiga vegetariana pediu uma omelete e explicou que era vegetariana. A omelete veio cheia, coberta, alegremente infestada de pedacinhos quadradinhos de presunto. Na hora de pagar, perguntei se o cara não podia dar um desconto. A resposta dele foi simplesmente francesa, uma bela de uma bufada na minha cara.

Mas eu me perdi. Eu ia escrever sobre a falta de contemplação, de praças, de sombras, de silêncio e acabei escrevendo sobre a corrupção que se infiltra no dia a dia.

Hoje está muito quente aqui no Rio de Janeiro. E eu sinto falta das longas conversas com amigos de outros lugares.








Thursday, September 15, 2016

Um amigo que começou a meditar



A coisa mais legal que aconteceu nesses últimos tempos foi reencontrar um amigo meu que está muito mais feliz.

Há dez anos atrás, a gente tirava sarro porque ele ia na padaria de carro.

Eu e meu namorado da época, aliás, ríamos das pessoas estúpidas no trânsito. "Barrigas nervosas atrás de um volante"- ele dizia.

Mas enfim, esse amigo começou a meditar.

E de repente ele está mais leve e tranquilo e feliz e bem humorado. E está tudo mais doce. E ele não tem mais que encher a cara por causa de timidez, se esconder, ficar calado e nervoso.

Foi uma coisa que me deixou muito feliz. Na época em que a gente se conheceu ele era super católico e eu tinha acabado de descobrir o cristianismo e estava super impactada e triste por não ter descoberto tanta coisa antes.

Mas eu meditava e estava começando a estudar tarô. E a meditação ia começar a mudar a minha vida.

Hoje eu estou super envolvida com cristianismo e ele está meditando. Parece que nós trocamos e combinamos de um fazer o que o outro gostava sem saber.

No final da conversa ele me convidou para ir ao centro que ele vai e disse que depois ia na missa comigo.

Cara, isso derreteu o meu coração.

Quando alguém melhora de verdade e você sabe que a pessoa mudou, dá um sentimento muito bom, um gosto pela vida.



Sinais



Outro dia eu lembrei dessa história e sorri.

Eu estava na véspera de uma prova importante, uma das provas mais importantes da minha vida. Eu tinha estudado muito sozinha.

De repente meu celular tocou e eu recebi uma mensagem de um amigo dizendo que tinha sonhado comigo.

No sonho, eu recomendava um filme para ele assistir, dizendo "assiste esse filme, é muito bom".

O nome do filme era "A Rainha Vitória."

Depois dessa mensagem eu soube que eu tinha passado na prova.

E no final eu passei mesmo. Foi mó legal.

Problemas com autoridade



Fazia muito tempo que eu não levava uma bronca.

E eu sou super orgulhosa e perfeccionista, eu sou do tipo que faz o trabalho muito bem feito, do tipo que nunca é demitida, eu aviso que vou sair do trabalho e entristeço os chefes. Eu já cheguei a levar bronca por me demitir. E como professora eu sou levemente inesquecível.

Mas nessa semana eu levei uma bronca, aliás, duas, e eu estava errada.

Eu também odeio estar errada.

Ser criticada, estar errada, levar bronca, tudo isso é a imagem do inferno pra mim.

É muito orgulho que eu tenho que vencer, tanto orgulho que chega a ser ridículo.

E no meio do orgulho tem a vontade de ser amada, valorizada, a sede de justiça, as minhas fantasias cristãs de morar em um convento pacífico.

Eu não sou uma pessoa muito madura.

Mas felizmente, o meu orgulho já foi esmigalhado muitas vezes e é esse o treino que é o segredo da felicidade. Um dos segredos da felicidade é ter o seu orgulho massacrado porque disso vem uma incrível leveza.

Não se importar tanto com nada, nem com o que os outros dizem de você nem com o que você mesma diz de você.

Saber quem você é e ficar calmo.

Bom, mas eu consegui, depois de desabafar bastante, voltar e fazer bem feito o que eu tinha deixado de fazer.

E agora eu estou aqui, de volta, no ilusório trono do perfeccionismo, da altiva razão, da frágil moral.

Mas o descanso é alguma coisa maior do que estar errado e estar certo.


O descanso tem mais a ver com um sorriso secreto na alma.


Tuesday, September 13, 2016

ando conhecendo pessoas felizes




Tenho conhecido pessoas felizes ultimamente.

E isso é uma graça.

As pessoas felizes têm algumas coisas em comum> A maioria delas têm namorado, elas costumam nunca reclamar, e geralmente elas são cheias de entusiasmo e de amigos.

Elas trabalham como freelancer e adoram viagens.

Coisas que as pessoas felizes fazem: estripulias.

Já vi uma pessoa feliz gravar o canto dos passarinhos para o seu amor.

E vi uma pessoa feliz calçar short sem calcinha na praia, depois de cair no mar, porque a parte de baixo do bikini fica molhada, mas rola só colocar o short por baixo do vestido, nem precisa se preocupar com a calcinha e aquele constrangimento de se trocar na praia na frente de todo mundo e acabar mostrando mais do que gostaria.

Uma amiga que eu conheço disse que gosta de pessoas que sabem tomar "um vento na asa". E falou isso abrindo os braços para cima, enquanto soprava uma brisa do mar e a gente corria para se secar no vento depois de um banho de mar à noite.

Porque assim. Eu conheço as melhores pessoas.

Essa menina me ensinou a mijar de pé no mar, com a água até o joelho, quando o mar está muito bravo e você está apertada.

Vários ensinamentos.


eu, um cara que eu amo e nossos momentos inesquecíveis






Ok. Um texto sobre o amor agora.

Tem esse cara de quem eu gosto. Eu realmente gosto dele. Quer dizer, eu já passei a fase do fogo da paixão e estou resignada sobre o nosso futuro juntos.

É estranho porque racionalmente, com tarô e intuição e analisando os fatos eu sei, aliás, eu tenho certeza absoluta de que nós dois nunca, sem se o mundo acabasse hoje e só sobrasse nós dois na face da terra: nós nunca ficaríamos juntos.

É uma coisa que não combina direito. A ponto de eu saber que meu desejo por ele se mistura com um pouco de nojo e uma ponta de aversão.

Politicamente ele me dá asco.

Mas mesmo assim existe amor. Existe um amor que nasceu e ele não vai morrer nesse coração.

Meu professor de catecismo me dizia isso e era tão legal. De algumas pessoas você vai gostar de graça, sem saber o motivo. É bem isso. Até de pessoas que não "mereceriam" esse amor, você vai gostar. E pessoas que mereceriam muito mais amor da sua parte às vezes não te cativam.

Inexplicável do jeito que é, eu amo esse cara.

Assim, de um jeito estranho, como quando você gosta de alguém que é velho demais, ou novo demais, ou estranho demais, ou que tem uma religião bizarra.

Eu gosto dele. Eu não, meu coração, saiu na frente, pá, e perdi a guerra contra a negação desse amor.

É interessante porque ele sabe disso.

Ele sabe que eu sinto esse amor débil mental por ele.

Mas ele também sabe que it's not gonna happen. E just because. Só porque não temos aquela fagulha essencial que faz as pessoas transarem e se apaixonarem.

Nos falta algo como casal, semelhanças fundamentais e atração física.

E mesmo assim o amor está ali, à espreita, fiel como um cão.

Às vezes é bom estarmos juntos trabalhando, ou fazendo alguma coisa para o chefe, ou discutindo algum assunto de uma aluna, ou procurando cd's em alguma livraria.

Às vezes não estamos fazendo nada também.

Mas o amor está ali. Esse cão idiota, meu Deus. Como ele é persistente.

E no silêncio do meio da tarde, entre uma xícara de café, uma risada e uma preocupação com algum texto do xerox,


o amor descansa entre nós.

Como um gato enrolado aos pés do dono. Encostando só as costas, só esticando uma pata para sentir a companhia do seu joelho.

E é o suficiente.



Levando o perdão até as últimas consequências




Eu estou lendo um livro sobre perdão.

Ainda não sei direito o que eu acho desse livro. Mas tenho um bom pressentimento.

Enfim, o livro fala sobre nossa tendência de culpar os outros e oferece outra via de comportamento.

Mais ou menos assim, o que aconteceria com uma pessoa, comigo ou com você se a atitude de culpar alguém simplesmente não existisse mais no seu leque de comportamentos habituais?

Queria escrever mais sobre esse livro mas preciso fazer milhões de outras coisas.

Por exemplo, voltar a ler esse livro.

reencontrando o último cara que me magoou muito




Meu pai me perguntou outro dia se eu tinha conhecido alguém. Minha mãe soltou outro dia durante uma conversa que eu tinha "problemas de relacionamento."

Sabe o que é pior?

Como é que você chega para os seus pais e diz assim, "pai, mãe, todos os homens que eu conheço se incomodam comigo e querem me colocar pra baixo. Até meus terapeutas fazem isso. E eu saio fora da relação porque isso é saudável. E eu não aguento mais e agora eu estou de férias de ser uma artista odiada pelos homens que pareciam tão interessantes e ficam brincando de provar que eu sou pior do que eles."

E isso não resiste a vários questionamentos. Isso não passa por exemplo por verdadeiro para qualquer psicóloga de esquina que venha com um discurso pronto do tipo "isso é uma crença limitante sua, querida, enquanto você pensar assim, nada de bom vai te acontecer."

É por essas e outras que o Cristianismo me ajuda.

O Cristianismo diz que todo mundo é pecador.

Pelo menos é uma perspectiva melhor do que culpar a vítima e dizer que ela "atraiu" aquela merda para si porque afinal ela está com "bad vibes".

Enfia essa bad vibes no olho do teu cu.


Eu ia falar sobre o reencontro com o último cara que me magoou muito. Mas é chover no molhado.

Acho que vou falar sobre o livro que ando lendo e sobre o treinamento de não culpar ninguém nunca mais.




nada que seja pesado




Foi nesse último sábado antes do assalto, eu acho.

Estávamos caminhando na rua de noite, eu e duas amigas. E uma delas estava narrando pela centésima vez uma história de abuso em um relacionamento passado. O problema é que ela estava revisitando uma história desinteressante, e violenta, que nós já conhecíamos porque ela já tinha contado essa história com outros detalhes antes.

Um cara que queria sempre o almoço dele ao meio-dia, um cara que ela só parou de agradar quando eles pararam de transar.

Então eu cortei o relato dela e pedi para a gente falar de coisas (não sei sei eu disse leves ou felizes, mas acho que foi felizes). Isso foi totalmente contra a filosofia da comunicação não violenta e a escuta ativa, que eu valorizo muito e que significa você apenas escutar o que a pessoa precisa te contar sem dar conselhos malditos e lições de moral e sem se comparar com ela e dizer coisas como "pior eu que..." ou "pelo menos você não pegou uma doença/morreu/sofreu um ataque de zumbis".

Mas foi bom pra mim. E acho que foi bom pra ela. Amigas não são terapeutas e cada uma precisa de um pouco de paz e diversão na vida. E ela estava começando a cansar repetindo a história. Mesmo que ela precise repetir. Na caminhada de sábado à noite pra casa, é um pouco demais.

Só que daí ela decidiu contar uma história feliz e começou a contar de como o motel que ela foi com um cara com quem ela transou e nunca mais viu era bonito.

Amiga, me ajuda a te ajudar?

É tenso né. Essas coisas que atravessam a amizade entre as mulheres, essas coisas como fazer merda, ser agredida, fazer merda, ser agredida, fazer mais merda, contar a merda que você fez para as amigas.

Essa moça tem muita culpa. A gente ouviu, a gente falou que culpa não adianta nada.

Mas não é isso. Ela é uma pessoa que eu mal conheço com problemas que eu entendo, mas que ao mesmo tempo eu não entendo.

Eu não sei qual é a dor que ela sente. E às vezes eu preciso me esforçar pra manter essa perspectiva e voltar a ser sensível.






O padre me assombrando



Acho que foi a primeira vez que eu odiei um padre.

Com todas as minhas forças.

Ele me disse que eu não devia cair na tentação de ser um herói ou uma vítima.

Porque afinal ninguém é Cristo. (No que ele estava completamente certo).


Mas eu escrevo que


As pessoas deviam receber um treinamento para ajudar as outras.


É só isso que eu quero deixar escrito hoje.

uma grande reflexão censurada



Hoje chegaram algumas caixas no trabalho e brincaram comigo sobre eu ser feminista e querer igualdade e sobre a minha obrigação em carregar as tais caixas como os homens que estavam se prontificando a carregar estavam fazendo.

Só que era uma piada.

E... eu não ri.

Na verdade eu acreditei que quem fez essa piada pensasse assim. Porque em geral é na hora de pagar a conta, e só na hora de pagar a conta que o assunto feminismo aparece. Ou na hora de dividir a carga.

Mas não era sobre isso que eu ia escrever.

Escrever se tornou uma atividade triste para mim. Por mais que me traga alegria. Eu fico feliz quando minhas AMIGAS dizem que gostaram do que eu escrevi. Mas.

A verdade é que depois de alguns anos de feminismo o mundo fica triste, viver fica triste, resistir, desistir fica triste. Reagir, passar a vida lutando ou apenas não conseguir evitar a consciência sobre a violência que te atinge é profundamente triste.

E saber que a luta não será ganha é mais triste ainda. Os homens aprontaram e vão continuar aprontando, assassinando, estuprando, matando, fazendo os comentários que eles fazem, na rua, entre eles, na sua cara, quando vocês estão a sós.

Mas mais do que isso.

Mais do que desistir de explicar para um cristão o quanto é sujo reduzir o feminismo a uma ideologia de esquerda nefasta enquanto tantas mulheres são assassinadas no Brasil (o número aumentou mais de 230 por cento segundo o Mapa da Violência, pelo que eu me lembre, na última vez que contaram uma última década, não vou olhar isso de novo).

Mais do que explicar que a existência de Deus atravessa a minha vida e que isso não quer dizer que eu vendi meu cérebro para uma Igreja do Mal que "matou tanta gente na Inquisição"

Ou seja, ser uma feminista cristã, isso ficou impossível, e me cansou.

Mas é mais, ainda é mais do que isso.

A vida exige que eu me posicione. As pessoas, as oportunidades que aparecem. De novo a vida vem me convidando docilmente para ser justa. Comigo, ou com mulheres que eu conheço e com as que eu nem conheço.

E é dessa consciência que é difícil fugir. Talvez seja um fetiche, talvez eu esteja me dando muita importância, mas e se for assim?

Escrever tem sido um exercício triste.

Não posso e não quero falar. Essa é a verdade. Quero ser verdadeira, mas não quero falar.

Não quero fazer terapia. Não quero falar. Não quero as palavras. Mas as palavras são meu descanso.

Talvez eu volte a fazer música.


A música pelo menos não machuca tanto se não tiver letra.


Estou cansada hoje. Docemente cansada. Só isso. Só saber que ser verdadeiro exige de mim uma força que eu não tenho agora.

Hoje vi um desabafo de uma amiga sobre violência psicológica. Admirei a coragem que ela teve para se expor, para avaliar a situação com cabeça fria, para dizer o que pensa.

Eu fiquei tempo demais sem dizer o que eu penso.

Se eu abrir a boca, é tanto ódio que eu prefiro matar alguém.

Mas agora eu estou no caminho da santidade e não posso matar nem acusar ninguém.

É um saco.













Friday, September 09, 2016

The Flying Concellos, o maior casal de trapezistas da história do circo




Achei essa foto pesquisando trapezistas.

A Amiga Nova



Trapeze Dreams, By Blackiliner


Minhas melhores amigas eu conheci em sala de aula. Com exceção de uma amiga que eu conheci em um bar, lendo tarô cigano, minhas melhores amigas eu conheci em salas de aulas, eventos acadêmicos e bibliotecas.

Nesse dia em que conheci a Amiga Nova, que vou chamar de Trapezista, eu resolvi falar durante um evento muito chato sobre realismo fantástico. O evento já tinha congelado, se uma alma penada aparecesse, ninguém se assustaria. Eu poderia encontrar uma cabeleira loira em um canto da sala ou cuspir coelhos que ninguém ia nem tremer. A sensação de tempo parado era enorme.

Então eu resolvi fazer um comentário, e depois eu fiz outro comentário e depois outro. O tempo tinha que passar e eu ia fazer alguma coisa com meus pensamentos, compartilhar. Era uma descida ao inferno, eu não tinha reputação, eu não tinha nada a perder, ninguém ia dizer nada, então eu falei. E todas as vezes em que eu abria a boca, uma menina da plateia que estava sentada duas fileiras à minha frente virava a cabeça e sorria.

Ela usava um rabo de cavalo e óculos de aro azuis, uma roupa jeans do século passado ou dos anos oitenta, que bem poderia ter sido da Rita Lee ou da minha mãe. E quando podia, ela olhava para mim e sorria um sorriso transparente cheio de vida porque afinal eu estava falando sobre um livro com bruxas e feiticeiras ou sacrifício de carneiros e os meus assuntos amenos típicos do dia a dia. E ela me olhava com os olhos acesos.

E eu quis muito ser amiga dela. Mas eu já tinha gasto todas as minhas fichas sendo a louca do congresso. Eu não tinha mais energia. Quando tudo terminou eu fui no banheiro e ela estava lá, então nós nos olhamos e sorrimos e eu perguntei se ela já tinha lido aquele livro sobre Jung e ela disse que já tinha ouvido falar.

Eu quis muito passar meu telefone, pedir o telefone dela. Mas eu já tinha gasto a cota de ímpeto do dia. Então eu saí do banheiro derrotada, esperando encontrar essa menina em algum outro dia.

E eu encontrei. Na próxima festa. E foi ali que tudo começou.

Deus é o melhor para apresentar as pessoas. Não tem nada como um encontro orquestrado por Deus em que você tem certeza absoluta de que aquele encontro foi coordenado, foi estrategicamente pensado para aquele momento da vida daquelas duas mulheres que vão aprender muito uma com a outra.

E foi assim. Ela chegou na festa e eu disse "eu queria mesmo te encontrar de novo" e ela disse alguma outra coisa como "eu também" ou "que massa" e assim foi, não aconteceu aos poucos, aconteceu de uma vez.

Foi um laço definitivo que se formou em uma noite enquanto sentamos no chão do meu quarto contando segredos.

Só uma noite e foi suficiente para o sentimento de porto seguro e de grandiosidade.

Porque há pessoas tão vastas, tão grandes, tão antigas que a sensação de conhecê-las é a sensação de visitar outro país, de passear por uma biblioteca, de assistir todos os filmes mais poéticos da sua vida.

Algumas pessoas têm mania de dizer que mulheres competem entre si, que mulheres não se ajudam, que mulheres falam mal uma da outra e não se unem.

Então às vezes é importante escrever e deixar escrito que não é só esse tipo de rivalidade entre mulheres que acontece. Não é. Às vezes o que acontece é uma porta para viagens muito maiores do que os músicos do Pink Floyd jamais sonharam.

Às vezes o encontro entre duas mulheres tem a força de duas gestações, de duas tradições de vivências e narrativas, de duas almas trapezistas que caíram muito mas que conhecem o tempo suspenso no ar.

A escrita não é o lugar dos nossos segredos. A vida é.








São Paulo não tem uma luz bonita, mas tem luz



Foto: Luis Fernando Gallo, CBN.

Minas Gerais tem uma luz bonita, dourada e espessa, uma luz do tempo que se arrasta pela tarde. É uma luz quase dura, e quase palpável, mas é dourada, então é uma luz cheia, que desce pelo dia, que cai nas cabeças das pessoas como uma benção.

É a luz do tempo antigo, de quando ainda se matava e morria por motivos como herança, intriga, revolução e não o craque e a polícia.

O Rio de Janeiro tem uma luz de cinema, uma luz branca, branca, aberta, esparsa, imensa, que fere os olhos. Uma luz tão branca que dá vontade de voltar para casa.

Mas na praia, essa luz branca deixa tudo com gosto de sonho, todas as pessoas ficam suaves, participando daquela cena de filme em que algo muito bom está prestes a acontecer, aliás, está acontecendo ali, com todo mundo, com ninguém em particular, apenas uma luz branca, extremamente branca e suave, de inverno, geral, aberta, escandalosamente farta; é muita luz mesmo os olhos não aguentam então me dá um beijo para eu fechar os olhos.

São Paulo é bonita em março, abril, maio e só. É quando tem o outono na cidade, o ar está gelado, as mulheres andam de bota e os homens de cachecol e sobretudo. E todo mundo está bonito e sério e fuma cigarro e a fumaça é azulada na tarde fria com o céu sem nuvens. Muito amor nas sombras alongadas das praças e no vinho quente dos bares da paulista de noite.

Mas é isso, três meses de luz bonita dourada e o resto é um borrão. O resto são o verde e o branco e o amarelado e o vermelho dos faróis dos carros e dos semáforos e das placas e do neon da rua Augusta. O resto são luzes artificiais.

Mas em São Paulo moram algumas pessoas que te pegam pela mão e te salvam no meio da noite. No meio da vida. Elas te salvam. Elas sabem o que é fazer um salvamento noturno e um resgate, elas te levam para casa e te oferecem bebida e comida e cobertor. E talvez, livros.

Então São Paulo é a cidade mais quente.

Sunday, August 14, 2016

assistindo o furacão se formando


1.

É estranho. A sensação atual é a de olhar para uma situação e ver o furacão se formando. As peças, as sombras, as energias baixas agindo ali, o furacão e o céu escuro.

E saber que tenho diante de mim um furacão é estranho porque já estou preparada para quando tudo for para os ares e ao mesmo tempo talvez seja verdade que eu tenho tempo de reverter a situação com meus pensamentos, com orações e com algum feitiço próprio. Algo que eu possa inventar.

Eu vejo adiante, ele vem chegando, mais um homem que vai me destruir, ele vem chegando cheio de entusiasmo para a destruição.

Eu olho e penso: que falta de criatividade.

2.

Diante daquele presságio, diante de um comportamento dominante e abusador, do uso do conhecimento em causa própria ou para causar dano e destruição, diante da ironia fina e do sarcasmo lancinante, e de uma inteligência bem humorada e ácida que esconde um vazio e uma profunda insatisfação com a vida,

está a minha presença

a minha dor

a minha risada

e depois

a escrita.

Wednesday, August 10, 2016

conselho para quem escreve: não escute ninguém



Acho que foi ontem que eu pensei nisso. Eu acho que o melhor conselho para quem escreve é não ouvir ninguém. Haha. Não escute ninguém, apenas escreva. A escrita vai encontrando o caminho que ela quer.

Claro que ler ajuda, estudar sobre roteiro ajuda, grifar livro, jornal, ler poesia, ensaio, que a correção de um editor é tão fundamental quanto a do seu amigo poeta. Mas quando eu comecei a escrever, cheia de medo, na internet, com meus vinte e um anos, já estava bom.

Era até melhor do que hoje. Quer dizer, o tempo passa e nossa flexibilidade muda, nossa sensibilidade muda. Quanto mais o tempo passa, menos juventude, menor energia, menor espontaneidade muitas vezes.

Por que alguém precisa de tanta técnica e conselhos se tudo o que a pessoa viveu é material suficiente para poder escrever por anos.

Entender a língua, amar o estilo de um escritor, aprender um idioma, estudar latim, gramática, fonética, morfologia, literatura e teoria literária, falar de livro, comprar livro, grifar livro, pintar livro de aquarela, fazer dedicatória.

Mas esse mundo aqui dessa pessoa que eu invento agora é bom, é suficiente para escrever.

Não dá para se perder e ir tão longe.

Eu não quero ouvir mais ninguém. Só quero escrever e reaquecer a escrita. Tentar sempre fazer um livro, mas estar aqui.

Estar aqui de volta. E depois desistir de tudo e apagar tudo. Essa liberdade que talvez seja uma das últimas liberdades disponíveis.

Estar aqui.