Friday, February 17, 2017

eu me levanto




Eu me levanto antes que alguém venha segurar a minha mão

Eu sinto a nuvem escura chegando e parando no meu ombro. Um cachecol de nuvem ao redor do pescoço, invisível.

Eu sei quando está acontecendo de novo e a única segurança é que os amigos vão se afastar porque é assim quando você está nublando, ninguém espera o temporal cair.

Se as pessoas não suportam nem o próprio sofrimento, imagine o sofrimento dos outros.

Você quer afastar alguém? É só dizer que está triste. A pessoa automaticamente sai da conversa. Como se você tivesse uma doença contagiosa, como se de repente você desse azar e dali a cinco minutos com a sua companhia, alguma coisa ruim fosse acontecer.

A gente sente a tristeza do outro e se afasta. Ninguém quer gastar seu tempo com alguém que precisa desabafar, é como emprestar dinheiro, ninguém quer ouvir falar nisso.

Ouvir cansa mais do que tudo, mais do que ler, mais do que escrever, até mais do que estudar.

Preciso fazer de novo aquele feitiço pra mim, o feitiço de mudar a nuvem de lugar, soprar o pescoço, mexer o ombro, correr da nuvem, mastigar a nuvem, cair com a chuva.

Não gosto da ideia de ser auto-centrada e cismada com meus problemas. Mas este é o espaço do texto que precisa acontecer e se o que precisa acontecer é lamber feridas, que seja.

Só estou feliz que esse dia acabou.

Conheci dois homens bem diferentes, um de esquerda e o outro de direta, e no meio, cá estamos eu e a minha cruz.

É isso.

Quero me manter em movimento. Acertar as contas, parar de ser uma pessoa com dificuldades.

É óbvio que é chato.

Quero sair desse dia. Meia noite e quinze. Pelo menos já tenho essa desculpa do horário, o dia mudou.

O Rio de Janeiro é composto de céu e inferno.

Noites que são bonitas, com música, pessoas felizes, mas e essa tristeza no rosto dos músicos, no rosto dos garçons, só eu vejo?

Que inveja do pessoal da igreja que se ampara e vive cheio de cuidado.

Hoje um amigo me disse que todas as amigas dele que são feministas queriam casar e ter alguém que as sustentasse. A suburbana que mora comigo estava na cozinha fazendo janta e disse "amiga, mulher não quer casar e ter filho, quem disse? mulher quer ser rica, magra e loira."

Queria conhecer um cara mais inteligente do que eu, mais rico do que eu, mais calmo do que eu, um cara que fosse melhor do que eu.

E com quem eu pudesse conversar.

Outro dia passou pela minha cabeça escrever uma carta para Deus. Eu estou na merda então, porque carta a gente escreve pra quem está longe.

A verdade é que as pessoas que gostam de mim me tratam bem, me amam.

Meus pais são ótimos comigo. Minhas amigas também.

Mas eu estava lendo um livro sobre uma escritora insuportável e pensando que eu sou parecida com ela.

Eu gosto de amizades que se fortalecem até o excesso, mesmo que eu possa ficar muito sozinha, me divertindo, eu gosto de um tipo de amizade que é farta, um amigo que toda hora quer saber como eu estou. Todos os dias.

Acho a ideia de casamento bonita por isso. Alguém que está toda hora querendo saber como você está e não é seu pai e sua mãe.

Alguém que está te ajudando toda hora, te beijando toda hora. Meu Deus que coisa surreal. É tão maravilhoso e soa tão sufocante.

Há um exercício que as pessoas recomendam você fazer quando você está ansioso com algo, que é imaginar o pior cenário que poderia acontecer e perceber que você também vai poder lidar com ele.

Mas existe também imaginar o melhor cenário possível. Outro dia eu imaginei que eu tinha um filho. Depois achei que era pouco, imaginei que ia querer dois. Depois achei que uma família feliz tem mais de dois filhos, é mais agitada, então imaginei três filhos.

Daí era o melhor cenário possível e eu já estava rica morando com um marido e seis filhos.

Seis filhos era o cenário perfeito.

Nem eu mesma acreditei que eu cheguei nisso. E agora estou morrendo de medo de estar grávida.

Deus, eu não quero estar grávida agora no meio do doutorado. Senhor, misericórdia.

É muito desesperador você pensar que um filho pode começar a crescer na sua barriga sem que você queira ou tenha escolhido isso.

Mulher devia se aposentar com trinta e cinco anos.

Eu não aguento mais.

Eu não aguento mais a espera estranha e suas justificativas e condenações.

Achei que eu não tinha mais aquela voz que só me condenava, aquele juiz insuportável que eu chamava de Saturno, aquele pequeno inferno particular de listar meus defeitos, exigir sempre a perfeição, acabar comigo mesma com qualquer deslize, com um copo derramado.

Eu tinha saído disso e agora eu estou cheia de culpa e de raiva e de tristeza de novo e querendo nem ser eu mesma.

Mas o dia já mudou.

E eu quero estar livre. Deus, eu quero estar livre. Eu quero poder assumir que eu não preciso de filho, que eu não preciso de livro, que eu não preciso de nada a não ser a confiança metálica de quem entrega a vida nas mãos de Cristo.

Eu sinto a tristeza das pessoas que estão com saudade de Cristo e que só de você começar a falar de Deus elas abaixam a cabeça, como se fosse um assunto que terminasse mal.

É apenas uma boa notícia, é só isso.

Outro dia uma amiga me contou que frequentava muito culto e que os pais são muito devotos. Eu vi como isso deixava o coração dela tranquilo, como se ela mesma escutando essa história pudesse se aceitar, pudesse finalmente se sentir digna.

Eu vejo tanta coisa, tantos corações desesperados cometendo as pequenas violências diárias e a perturbação de não acreditar em Deus com serenidade. É tão doloroso. É dilacerante.

Às vezes eu queria dizer tanta coisa para as pessoas mas eu sei que não adianta eu falar, eu sei que pode causar mal estar, pode quebrar a confiança, a relação de autoridade, ou entre amigas, pode causar algum estrago no coração da pessoa, raiva.

Eu fiquei bem feliz quando essa amiga me disse que eu quase não falava sobre Deus, porque agora a verdade é que eu torço silenciosamente para que ela continue com Deus. Para que ela continue crescendo nessa percepção.

Outro dia a gente estava saindo da casa dela, e ela ia viajar. Já na porta do prédio ela voltou para conferir se tinha trancado a porta. Eu não falei nada mas logo depois que ela saiu ela começou a falar que a porta era fácil de arrombar e isso e aquilo. Daí eu disse "quando você for viajar, reza, pede Deus proteja a minha casa".


É difícil acreditar em algo que não se vê, então é melhor ver. Enxergar Deus dentro da vida. Em cada acontecimento.


Estou com saudade de viver milagres mais escandalosos, mas talvez isso seja só uma tentação.


O importante é se sentir abençoado, dizia um amigo meu.


Tecer o fio dessa paz que só se estica com o amor. O amor de receber uma pessoa chegando, o amor de se despedir direito de quem está partindo.

O amor de não reagir a um comentário ríspido com rispidez.

O amor concentrado nas entrelinhas, todos os dias, em todas as ações, o ato consciente que transforma a vida não em uma ação automática mas em um artesanato.

Essa disposição de amar que está crescendo em mim há alguns anos. E toda essa nuvem de tristeza pregada no corpo que não combina com o coração leve.

Todas essas órbitas e naufrágios, todas essas vitórias e risos silenciosos.

As roupas que eu visto, as máscaras que eu visto, as mentiras e as disparidades entre o que eu mostro e quem eu sou e o cansaço que se desprende dos segredos, das dores antigas, da vontade de ser abraçada.

Todas essas histórias mal contadas, todos esses rascunhos e tentativas, inteiros e sofisticados, e perdidos na trilha de uma vida.






Thursday, February 16, 2017

O erro tático do feminismo: ou não



O feminismo tem cometido um erro tático: enfrentar o machismo diretamente, pela confrontação direta. Esquecemos que a confrontação direta provoca apenas mais reciprocidade violenta, um ensinamento girardiano.

Um homem foi machista com você, se você confrontá-lo diretamente, há grandes chances de que ele fique com raiva de você (não do sistema falocêntrico) e passe looonge de refletir sobre o sofrimento das mulheres.

(Veja que não estamos nem falando sobre o que significa ser mulher, sobre Butler, Beuavoir, sobre a "essência do feminino", então esse cara está longe de pensar sobre o sofrimento dos gays, das travestis, dos trasngêneros, das pessoas não binárias, dos bissexuais ou das mulheres negras, latinas, asiáticas, indianas etc).

E isso pode acontecer mesmo que ele tenha consciência moral. As pessoas dotadas de consciência moral também têm ego, e uma vida inteira de experiências com o machismo. Não é você com o seu feminismo que vai rachar a estrutura toda de repente. Mesmo que Leonard Cohen tenha dito que there is a crack in everything.

A não ser que você seja inspirada pelo Espírito Santo, não é através de uma conversa que o milagre acontece, especialmente se você estiver com raiva. Se você estiver com raiva na hora de falar de feminismo, vão te chamar de feminazi, feminoia, mal amada e daí pra baixo.

Se você quer ser mais bem tratada pelos seus amigos machistas, (que no meu caso são praticamente todos os meus amigos menos alguns gays, três ateus, um ou dois cristãos vigilantes e aqueles homens que atingiram a iluminação) a última coisa que você deve fazer é dizer que você é feminista. Nunca fale de feminismo. Se perguntarem, finja que não é com você.

Viva como se nunca tivesse ouvido falar de feminismo, como se nenhuma das suas amigas nunca tivesse sido estuprada ou assediada sexualmente por algum parente, nunca relate que você foi seguida na rua ou que alguém passou a mão na sua bunda, no seu peito, no seu cabelo. Esse tipo de relato cria um efeito de ameaça na cabeça dos homens que, em sua grande maioria, evitam a qualquer custo fazer a terrível pergunta "eu sou um deles? eu também sou machista em algum aspecto?"

Muitos homens respondem essa pergunta assim, no claustro de suas consciências: "não, eu não sou machista"; ou assim "eu sou cristão de direta e o feminismo é uma ideologia marxista, portanto é impossível conhecer o mundo através de uma ideologia e o feminismo é apenas um escarro ontológico".

Ao invés de perder o seu tempo tentando fazer um cristão ter compaixão pelo sofrimento de quem atende pelo nome de mulher (Butler, te amo), o melhor que você tem a fazer é ser esperta.

Imagine que você está caminhando em direção a um bar com dois amigos para se divertir, mas você está levando uma mala muito pesada e uma mochila nas costas.

Você pode continuar levando sua mala pesada, afinal, cada um se responsabilize por suas coisas, ou:

1) Parar na rua e começar a fazer um sermão porque eles não estão sendo cavalheiros com você, dizendo que chamar mulher de sexo frágil é fácil mas ser gente e ajudar uma mulher a levar menos peso nem passa pela cabeça deles porque eles tiveram uma educação machista e vivemos em uma sociedade machista, especialmente no Brasil, que é um país com alto índices de assassinato de mulheres, jovens negros, gays e travestis etc

2) Pedir para algum deles carregar sua bolsa pesada

3) Fingir que você caiu na rua e realmente encenar esse tombo, com cara de dor e fazer com que eles te ajudem a levantar e acabem, por observação, não querendo passar esse susto de novo ou despertando para o fato de que carregar sua bolsa pesada pode te ajudar.

Agora estamos diante de um segundo passo.

Se você entende que a opção 1) é pouco estratégica, você não está mais no modo revolta moral.

Ou seja, você não está mais mergulhada em uma vontade totalmente compreensível de se vingar dos homens que construíram e moram em um mundo que te detesta e te chama de objeto e de burra e de criança e de histérica há séculos.

E olhando a revolta moral de frente você está com a cabeça mais fria para planejar melhor suas atitudes e reações e não sair por aí destruindo bancas de jornal por causa das revistas machistas que te ensinam a perder barriga e fazer um homem gozar na cama.

Olhando a revolta moral de frente você se arrisca menos a destruir sua família, sua vida profissional e pessoal, que pode ficar eternamente ameaçada por machistas da internet. Com a cabeça fria, você pode evitar perder amizades com homens legais que ainda não estudaram feminismo etc.

E, mais importante de tudo, você pode evitar as consequências nefastas de um ataque de raiva como cuspir em alguém, ser presa, bater em alguém ou até matar.

Agora ficamos entre a escolha 2) pedir para os seus amigos carregarem sua bolsa de forma direta e espontânea e 3) fingir que você caiu.

Eu, pessoalmente, nessa situação, continuei levando a minha bolsa pesada durante todo o caminho, de salto e suando no calor do Rio de Janeiro.

Por quê?

Porque eu estava com raiva e com raiva eu não pude pensar direito e precisei abafar a minha raiva tentando fingir que nada estava acontecendo.

É uma coisa que eu tenho feito desde que alguém me disse que eu estava "ficando mocinha' (Beuvoir, oi).

Escolher entre viver a sua vida como se o feminismo e o machismo não existissem não é possível para quem estudou o feminismo durante seis meses. Não precisa mais de seis meses de feminismo para você receber explicações sobre todo o tipo de violência que você viveu na sua vida desde que o médico disse que você era uma menina até hoje.

Não está dando certo se confrontar diretamente com os homens. Eles estão ficando com raiva e dizendo coisas como "quer saber se uma mulher é feminista? se tiver sovaco peludo é feminista" e não coisas como "hoje cedi um lugar no ônibus para uma mulher sentar", "minha namorada está menstruada, vou na casa dela levar chocolate" ou "posso te acompanhar a pé até o metrô? está meio tarde para você andar sozinha agora".

Então, voltando, vamos excluir a opção "pregar sobre feminismo para os amigos machistas" e escolher entre 2) ser espontâneo e honesta ou 3) ser estratégico.

Claro que na situação da mala pesada muitos leitores vão pensar "fala a verdade porra, pede para os seus amigos levarem a mala pesada sem discursinho feminazi". Okay. É a opção mais simpática, mas será que ela serve para todas as situações? Será que ela é melhor do que a opção "fingir que caiu" em todos os sentidos? "Fingir que caiu" é uma opção bem mais divertida. Será que é pecado só porque é uma mentirinha? Mas e se for uma mentirinha educativa?

Pensando na consciência moral, sim. É melhor agir de forma direta. Mas, nem sempre.

Dizer na cara de um amigo seu que ele é machista é uma forma direta mas ineficaz de sensibilizar alguém sobre as dificuldades das mulheres, por exemplo, porque fará com que ele sinta raiva de você e não do sistema patriarcal.

Mesmo que você descreva qualquer violência de gênero (tradução= mesmo que você diga que desde os seus quinze anos você tem medo de andar na rua porque os caras machistas mexem com você dizendo coisas sobre o seu corpo e tocando em você, e você tente explicar que os homens não passam por isso porque mulher nenhuma pararia o seu dia para assediar alguém), o efeito pode ser nulo ou reativo.

O homem em questão pode começar a contar sobre vários sofrimentos que ele passou na vida dele, que o pai dele era alcoólatra e que ele passou fome e etc, entrando num jogo de competição pra ver quem sofreu mais você ou ele. Em geral esse tipo de conversa termina com o fim da amizade e nenhuma compaixão.

Uma das coisas que eu gosto e que funciona é o efeito de "criar consciência" na pessoa sobre um problema qualquer que afete as mulheres.

Eu aprendi isso com uma amiga muito safa que conseguia me fazer pensar nas cagadas que eu tinha feito falando mal de comportamentos que ela não gostava que eu fizesse, mas dizendo que Fulano fez isso, ou que as pessoas em geral fazem aquilo. É muito eficaz e ela se divertia muito com a minha cara, disso eu tenho certeza.

Então, vamos para um exemplo.

Sempre que eu precisava sair de um evento cheio de homens eu dizia assim "alguém me dá carona a pé?", porque eu só queria que alguém me acompanhasse até o metrô mais próximo. Eu gosto de andar na rua à noite mas tenho medo de fazer isso sozinha depois das dez (na verdade em qualquer horário e a qualquer momento dependendo do meu estado espiritual no dia).

Um dos meus amigos sempre achou isso estranho e ria repetindo "carona a pé". Aí um dia eu postei alguma coisa no facebook sobre o perigo de andar na rua para uma mulher, e de pegar um táxi e de pegar um ônibus. E plin! Não foi uma confrontação direta e: Ele entendeu.

E ele passou a me acompanhar na rua de vez em quando.

É isso.

É aos poucos, sem confrontação direta, sem entrar na cagada de dizer que você é feminista e sem fazer discurso.

Tudo isso faria muito sentido mas...

Na verdade eu não concordo com isso.

Eu digo que eu sou feminista sim e eu perco amizades por causa disso. Porque há certas brigas que precisam acontecer.

Porque Deus não gosta de mulher bundona. Ninguém gosta. Só o capeta.

Há certas amizades que vão ser ameaçadas e depois que vão ser retomadas com pedidos de desculpa em mesa do bar como aconteceu com um dos caras mais inteligentes que eu conheci no Rio quando ele reconheceu que não era o caso de fazer campeonato de quem tinha sofrido mais e apenas reconhecer que uma mulher em geral se atormenta durante toda a sua vida por causa da própria aparência e isso tem sim a ver com o lugar onde vivemos, o que passa na televisão, o que ela escutou da família, dos namorados ou namoradas que ela teve a vida toda, o que ela leu em revistas e livros, o que os professores disseram no colégio etc.

Eu não consigo não dizer que eu sou feminista porque é uma sacanagem com as mulheres que foram presas por defenderem o voto e a educação para mulheres, de certa forma esconder que você é feminista é não honrar a memória das mulheres que lutaram na política por mais direitos para as trabalhadoras do campo e da cidade, é ignorar que a Maria da Penha levou um tio do marido enquanto dormia, é fazer pouco caso das meninas de doze anos negras que estão cantando rap de black power, das militantes a favor do parto humanizado que estão fazendo com que milhares de mulheres tenham o direito de dar a luz sem algum médico dizendo para elas 'sua louca, pára de gritar' ou fazendo intervenções cirúrgicas como a episiotomia sem consentimento delas, porque afinal quem não precisa de um "corte do marido"?. É não honrar o trabalho de ginecologistas feministas que estão amparando meninas de quinze anos que acham que transar é abrir as pernas e sangrar todas as vezes e que estão explicando que isso não é sexo. É desprezar as professoras universitárias que comprar briga nos departamentos para que a gente possa saber quem foi Dona Haraway ou Angélica Freitas.

Então a resposta é "eu não sei".

Para algumas situações funciona demais ficar quieta e não falar nada sobre feminismo, para outras situações funciona brigar até a amizade acabar porque isso é ir a fundo nas coisas. Funciona não é um verbo muito feliz, mas é isso, dormir com a consciência tranquila não é fácil.

Cada mulher vai ter que saber a hora certa de tirar ou não o feminismo da cartola e pagar o preço das consequências e o preço do silêncio.


O discernimento para isso eu peço que venha do Espírito Santo.


E da Virginia Woolf.









Monday, February 06, 2017

nós dois



Jack Vettriano, não sei o nome.

Melhor casal.

minha vida está fritando



Sunshine and Champagne II, Jack Vettriano


Minha vida está fritando. A impressão é que alguma coisa saiu do ponto e a vida queimou, mas ainda está crua. Minha vida está crua ou está queimada, alguma coisa fora do tempo, a sensação de que o tempo está errado e de que os acontecimentos bons que mudam tudo já deveriam ter acontecido. Então devo estar bem perto.

Estou bem perto de um lugar onde a vida fica excelente e atinge um patamar nunca antes vivido, um estágio de paz onde não existe mais preocupação, apenas o sol, a pele se bronzeando e champagne.

Estou perto, só posso estar perto da vida excelente, da vida com champagne. Hoje uma amiga disse que queria tomar banho de banheira de ouro em Dubai, e comer sorvete e café com pó de ouro em cima. Achei absolutamente absurdo mas adorável o jeito dela, de suburbana sonhadora, olhando para a lua e desejando essa bobagem cósmica com toda a sinceridade de um coração alegre e machucado que ainda se dá o direito de sonhar com coisas esdrúxulas olhando a lua.

Sem saber ela me fez muito feliz. Eu disse que usaria salto alto de diamante, mas recusei o pó de ouro. Fiquei imaginando o ouro descendo pela minha garganta e eu sendo barrada na porta do banco depois.

O julgamento imaginário dos grandes leitores




Às vezes eu imagino o julgamento das almas cheio de burocracia, composto de várias instâncias.

Um dos julgamentos é a Deusa Mãe Terra perguntando quantas vezes você reciclou o lixo e se você já amou uma joaninha passeando pelo seu braço.

Há várias salas e a cada sala um tipo de juiz vai cobrar um tipo de falha que você teve na vida.

Existe uma Deusa vestida de farrapos e ela pergunta quantos mendigos você ignorou pela existência e se você não souber, ela sabe a conta exata.

São infinitas salas de vergonha.

Uma das Deusas cobra o quanto você estudou de política e ela faz isso nua, usando uma boina verde ou uma gravata conforme o caso.

Algumas cobranças são mais simples como o amor pelos animais e outras cobranças são mais complexas como o grau de aventura obtido na vida, quantas pessoas você amou de verdade, o quanto você aprendeu a cozinhar.

Essa cobrança é feita por uma cozinheira gorda de batom vermelho e avental justo e ela inspira muito tesão e vergonha em quem não sabe fritar um ovo.

Mas em uma dessas salas está uma mulher terrível, nua e de óculos de aro bem fino. E ela segura um chicote e está rodeada de livros. Ela é uma das Deusas mais temidas nesse purgatório clandestino da minha imaginação. É a Deusa que julga quem leu demais e depois da morte ela aponta todas as pequenas violências que os grandes leitores aprontaram com pessoas próximas.

É um acerto de contas muito triste para quem está ali.

Infinitamente triste. Mas necessário. Poucos sobrevivem de pé.

Thursday, February 02, 2017

Carta para Novo Amor número 99/1




Ilustração: Budi Satria Kwan


Você veio até onde eu estava. Eu sabia que seria assim. Sem esforço. Leve. Você veio até aqui e mostrou que seu coração combina com a sua voz, os dois são feitos de veludo e do silêncio de um lago no inverno. A quietude que sem esperar torna-se a pura entrega.

Vagando e vagando entre mensagens e posts e gravações de amigos e vídeos e convites para ouvir Raul Seixas no sábado você interrompeu todo esse fluxo de informação dizendo que me ama.

Estou aqui deitada nesse sonho de tudo o que pode ser e de tudo que pode quebrar, entre o nosso filho e a dor de te perder, esse meio do caminho que é tão lindo.

Um caminho cheio de folhas, parecido com um postal do Canadá que uma amiga me enviou há anos atrás e virou meu lugar secreto de descanso.

Meu coração te reconhece. Você é aquele tipo de cara que está apaixonado por Cristo e querendo fazer o bem, você vigia meus maus sentimentos e não quer se despedir de mim.

Muito tempo sem a pessoa que amamos cria uma falta tão espessa que ela toma a forma de outro corpo e eu não quero ser mais duas mulheres. Aquela que espera e aquela que encontra. Eu quero tocar aquele sentimento de ser abençoado que os casais têm e que algumas pessoas solteiras também têm quando estão se divertindo com a solidão.

Aos poucos eu criei espaço para você.

E agora o espaço entre nós é pequeno, é um círculo, não é mais aquele horizonte vasto e deserto cheio de súplicas e de sextas-feiras com o sabor da derrota. Todos os dias estão na linha do Equador, todos os meses estão ouvindo Mozart.

Todos os cantos do meu corpo estão felizes, secretamente felizes, cobertos pela memória da sua voz e pela vaga concretude do seu nome.

O seu nome causa um pequeno corte no coração, um sobressalto, um aviso, um sinal de que meu coração foi ferido e agora está doendo, cheio de vida e da incontornável percepção de que eu mudei.

Não somos mais os mesmos há uma semana, não temos mais um nome morno, esfriando com o passar do tempo.

Agora fomos convidados para o nosso casamento, agora cada dia é uma peça do quebra cabeça de duas pessoas que se amam, um jogo que vamos jogar sem pressa, finalmente sem pressa porque podemos passar todos os dias juntos, engordurados das nossas manias e desse amor horrível que vai crescendo e mudando até a temperatura das paredes, a cor dos nossos olhos, o que faremos e o que será escrito por nós quando estivermos loucos de saudade ou distraídos um do outro.

E tudo isso que é tão grande e que eu desejo para todo mundo.









a beleza das ideias certas não é suficiente




Uma ideia bonita pode ser um veneno. Uma ideia certa, uma ideia coerente e que tem sua grandeza e pode ecoar na alma de algum homem, mesmo essa ideia, uma rosa molhada pelo orvalho da noite, pode ser ruim.

A vida é cheia de curvas, a ciência de amar é cheia de curvas, as regras são o playground do demônio, ele adora quando os estudantes estão ficando formatados em suas leituras certas e em suas teoria certas, porque isso ainda não é humanidade, e toda essa biblioteca não vale nada quando essas ideias não são postas à prova e revertidas pela realidade, não a realidade como tal mas a realidade que se descortina apenas quando algum desses estudantes decide perder tudo.

Perder tudo, perder a beleza do castelo das ideias e das lombadas coloridas dos livros, arrumadas em degradé, perder isso. Perder a razão.

O diabo tenta o estudante apaixonado por Cristo e o estudante apaixonado por Cristo quer continuar enchendo a casa de livros, mas a casa precisa de amor, a vida precisa de vida, estamos nos desintegrando e antes que tudo acabe precisamos morrer muito.

Precisamos morrer muito antes de morrer. Esse não é um aprendizado fácil apesar de parecer bonito.

Porque afinal morte é morte. Noite é noite. Dor é dor.

A guerra cultural está acontecendo e a vaidade está aliciando os dois lados.

Felizmente o amor está aliciando os dois lados.

É preciso perder tudo sem a vaidade de perder tudo, é preciso amar a mulher sem a vaidade de ser bom.

Esse é um texto aparentemente moralista e cheio de regras. Mas ele está apontando para a mulher e a rosa. Ele está apontando para o raio de sol e todos os relâmpagos perdidos nas noites de estudo, ele está falando das pessoas que moram na casa e estão chamando esse estudante para um café porque elas só querem companhia para chorar enquanto ele estuda, no quarto, fascinado.

Enquanto o estudante se afunda em leituras alguém vira um santo, alguém apanha do marido, alguém é expulso de casa por ser gay, sua namorada sente saudade, sua mãe faz o jantar.

E o demônio sorri.

E Cristo também sorri.

mundo próprio




Eu sempre gostei de histórias de detetives. Apesar da palavra mistério ser muito ridícula. Tento ler o que foi desenhado para mim mas ainda estou na primeira página e o desenho está aparecendo no verso, todo colorido.

Como Deus quer que essa segunda parte da minha vida aconteça? Como?

Agora que não estou viva ou morta e consigo pisar nesse imenso jardim elétrico, a página branca, sem medo e sem dever explicações.

Uma vez o professor disse "você, que lê o Evangelho" e a sala inteira olhou para mim. Eu tive um reflexo de esconder o rosto com Shakespeare, quer dizer, com a peça que estávamos lendo na aula.

Eu.... eu hoje sou uma daquelas pessoas que "lêem o Evangelho", que chique. Mas eu já fui uma pessoa que diziam que cresceu sem religião. Alguém já falou de mim dizendo "ninguém reza à mesa na casa dela" e eu senti vontade de morrer.

O amor não é rezar na mesa da família se isso deixar as pessoas tristes. A ciência de amar as pessoas é cheia de curvas.

Eu me sinto estranha, misturando paciência com revolta e fervendo com tédio e amor.

Será que existe alguma resposta para o juri? Será que temos enquanto escritoras alguma obrigação de falar sobre Deus?

Devemos isso a quem?

Tenho amado sozinha um bando de homens que nunca se apaixonariam por mim mas que me amam, em segredo, com vergonha, às vezes até com tristeza, inveja e um tênue desprezo que sempre arrasa meus ombros. Mas isso tudo ainda é bonito.

Deixei como quem abandona uma casa caindo as pedaços um último relacionamento ruim.

E agora renascendo das cinzas eu conheci alguém que poderia ser meu marido. Tudo é fácil com ele, a conversa é fácil, a paixão pelos livros, as conversas longas que misturam arquitetura e a investigação do fascínio do rosto de Cristo.

Talvez eu tenha chegado no lugar mais importante da minha vida, esse dia em que decidi não me matar.

E talvez tudo apenas se torne muito mais macio a partir dessa recusa em morrer.

As grandes vitórias nem sempre são grandes marcos, uma grande vitória pode acontecer no meio da semana, em uma quarta-feira quando uma escritora não se suicida, em uma quinta -feira quando uma pianista sente que já pode tocar sem os demônios mordendo seu pulso porque simplesmente por um efeito de extrema vontade, de uma vontade feita do fogo invisível do fundo da alma que quer viver, esse fogo talvez tenha moldado um novo destino de luz.

Eu estou aqui, abandonando a sede de justiça, abandonando a vingança, abandonando a necessidade de corrigir mais um homem machista orgulhoso de pensar que o feminismo é marxismo cultural, eu estou aqui, sem agredir de volta um dos amigos que mais amei e que me ofendeu publicamente, eu estou aqui, sem gritar o grito da saúde do corpo, o grito da reivindicação por apoio e compaixão.

Uma das minhas amigas próximas está sofrendo há um bom tempo, carregando um desses fardos ruins de levar, um cubo de açúcar que não dissolve na boca e que fica ali, jogado para lá e para cá entre as frases, atrapalhando cada palavra, sem ser dissolvido, um quadrilátero de segredo, um pulso morto e frio que impede a fluidez do canto.

E quando ela estava a ponto de atirar esse cubo na cara da mãe dela eu disse que não teria o efeito que ela esperava.

É preciso ter um pouco de senso de realidade e não esperar muito das pessoas. Ter a inteligência de esperar compreensão apenas de Deus.

Do contrário são muito machucados na alma e não vale a pena.

Ela entendeu. Não tem a ver com silenciamento e não tem a ver com covardia ou conformismo. Não é um gesto moralmente execrável é apenas a quietude dos inocentes, o silêncio dos inocentes, o movimento das testemunhas que se movem ao lado de Deus em sua solidão heróica e secreta.

Eu ando ajudando amigos. Eu, que passei tanto tempo negando que precisava de ajuda. Agora eu estou aqui, melhor.

Isso é edificar a sua própria capela azul, no meio do mato, num terreno baldio, à noite, na esquina da imaginação, no seu mundo próprio.

Só os vaga-lumes beijam a minha face.

E agora esse homem que gosta de mim, falando comigo a voz dele se enche de amor. É invisível, mas eu consigo sentir.

Eu cresci e agora estou maior do que eu.

Eu poderia estar num livro que eu gosto de ler. Então está tudo bem.


Wednesday, December 28, 2016

O grito eterno



Estava lendo uma entrevista com Madonna em que ela diz que sei pai nunca comenta sobre o fato de ela ter se tornado cantora e famosa etc.

Para a nossa família há um certo status que demora para mudar, que talvez não mude mesmo com a mídia ou respostas e circunstâncias externas.

Mas um pouco eu acho que essa imagem balança.

Eu agora estou cheia de segredos.

As coisas estão acontecendo mas ninguém sabe muito bem como as coisas estão acontecendo.

E eu estou mudando de tamanho.

Eu sei que esse é o meu espaço e a minha escrita mas eu estou mudando de tamanho.

Percebi isso hoje quando consegui não aceitar duas ideias da minha mãe. Não foram duas ideias rebuscadas e complexas, apenas duas ideias erradas que eu sei que estavam erradas e que eu consegui refutar. Minha irmã não tinha pego o caderno da minha mãe que ela estava procurando. Eu sabia disso. Eu sei que a gente perde uma coisa e acusa outra pessoa só para ficar mais fácil. Um bode expiatório que agora colocou nossos óculos em algum lugar. Um duende. Nem que seja um bode expiatório tão pequeno quanto um duende.

A outra ideia que refutei foi sobre uma coisa ruim que não tinha acontecido. Eu sei que a amiga da minha mãe chegou bem em casa. Embora ela estivesse armando aquele pequeno circo do terror ao redor de hipóteses de fulana não me respondeu, eu vou ligar, enquanto eu dizia espera um pouco, ou liga de novo, até que a amiga finalmente depois de mais dez segundos respondeu e tudo se resolveu.

Esses medos que me assombraram a vida, os medos da minha mãe, eles não são os meus. Temos medos em comum mas há muitos medos diferentes. E alguns não são meus e eu estou devolvendo delicadamente.

Os temas da minha escrita são o mal e a existência de Deus. Temas derivados disso são a arte como um caminho para não enlouquecer...talvez...a escrita como remédio, auto-conhecimento...e finalmente o aprendizado da alegria para que eu chegue na religião e de novo em Deus.

Então é isso. E me passou na cabeça hoje escrever sobre arte e literatura, mas também me passou pela cabeça que preciso fazer meu livro.

E também pensei que não posso deixar escapar o quanto eu procurei a Deus, o quanto Ele me chamou ou esteve por perto.

Simplesmente essas são as melhores histórias, as histórias de amor por homens ridículos e as histórias de amor por Deus.

Ok, e meu terapeuta mandou dizer, e as minhas histórias de amor por mim mas isso é muito brega.


Estou sentindo as coisas dentro de mim mudando de tamanho. Sinto a alegria tomando conta do silêncio.

Não posso dizer mais nada.








Monday, December 19, 2016

A última carta de amor que escrevi




Sete e pouco da noite, na universidade, dentro da livraria.

Esta é a minha primeira carta para você, porque estou um pouco feliz com a folha em branco que estou deixando escrita agora e que você começou a perturbar com o seu jeito discreto de quem não quer incomodar mas quer aprender um pouco com os papéis que encontrar nas minhas gavetas e ontem eu estava pesando sobre como é bom ser conhecida por alguém que está chegando na minha vida sem pressa e sem o desinteresse daqueles cachorros gordos de suas próprias certezas que perderam o melhor dos cachorros,a febre alegre e divertida do amor fiel que se deslumbra com qualquer notícia que venha dos lábios de uma pessoa amada quando ela ainda não pisou no centro do palco mas cantando da cochia já estraçalha o nosso coração inteiro.

O nosso coração inteiro vai estar presente em nosso encontro de xícaras em uma das livrarias que também é a sua preferida nessa feliz coincidência que você ressaltou e que fez carinho no meu ouvido.

Todo o universo em seu equilíbrio de mistério e todos os deuses mais extravagantes e os deuses mais tranquilos se juntaram para equilibrar nossos nomes nesse móbile frágil que é um presente e está se desenhando como um futuro, eu espero, doce como grãos de açúcar e delicado como as folhas de uma tulipa que acabou de florir em alguma montanha.

Se você não gostar da alma de uma pessoa, não vai poder amar e suportar as suas meias e aquela sandália havaiana que você odeia.

Uma vez um namorado meu descobriu que eu não gostava de uma camiseta dele e nunca mais usou, pior, fez dessa camiseta um pano de chão. Eu acho essas coisas erradas tão certas. Eu não trouxe o telefone e estou louca para saber se você gostou dos meus textos e se você vai me amar mesmo quando eu estiver com mau humor de fome ou menstruação.

Eu só queria que os seus olhos fossem mesmo castanhos e que você conheça uma parte de mim que me assusta, que é tão bonita e tão elétrica quanto um filhote de coelho ou um diamante de fogo.

Eu estou querendo te beijar e me aproximo de você com uma timidez que reúne, como diz o Borges, todas as minhas idades, todas as minhas súplicas, as noites de abraçar travesseiro, e de não saber qual será o sabor do seu nome na minha boca quando ele já tiver sido repetido muitas vezes e continuar tranquilo como praia, macio como uma janela penteando meu cabelo com o vento de um dia em que eu acordo feliz feito criança, menina das meninas, reinando no castelo que é a nossa companhia.

Entre narcisistas e melancólicos





Sunshine and champagne, Jack Vettriano


Se você quer ser um homem interessante, seja um homem normal, discretamente alegre. Seja macio(não faça academia) e doce (carinhoso de alma), mas não seja narcisista ou melancólico. Já temos homens chatos demais por aí.

Nesses tempos infelizmente eu caí no bom e velho erro de sair com pessoas não tão interessantes assim, mas quem sabe amáveis. Eu não tenho mais idade para esse tipo de cara que se acha o máximo nem para esse tipo de cara que tem uma vibração tão baixa que se você abrir o guarda-roupa dele só vai ter um monte de roupa sem cor, azul marinho, meio suja. Ah pelo amor de Deus. Faz essa barba.

É tão broxante a pessoa ser narcisista. Mas claro que ela não percebe isso, para o senhor Campeão de Tudo eu é que estou diante do imenso privilégio de estar na presença de um integrante da realeza humana. E para o melancólico, estou tendo o privilégio de ouvir suas sagradas lamúrias. Um diz que já viu de tudo e já sabe de tudo mais do que eu e o outro diz que já fez terapia e me deixa muito tentada a perguntar por que então ele ainda não é feliz. Falta de Deus?

Narcisismo, melancolia, é tudo uma grande falta de charme, de experiência e de curiosidade, e é tudo falta de Deus.

Deus dissolve a ilusão do quanto somos interessantes, Deus nos deixa ridículos e necessitados, gratos e contentes.

Não tem nada a ver com a energia de te avaliar como se você fosse uma candidata do Bachelor ou uma mulher a ser vencida em um debate.

É estranho porque eu já não sei se é pecado tentar amar pessoas que são desinteressantes a ponto de me agredir emocionalmente com essas doses cavalares de vaidade e depressão.

Será que é pecado insistir nesses encontros?

Será que é possível amar essas pessoas a distância?

Amar a distância, como quem ama um animal machucado do zoológico, alguém que tem uma voz irritante e trabalha na mesma sala que você. Uma criatura que nunca vai me enxergar, que nunca vai me entender, e que vai se desinteressar por mim depois de uma, duas ou três experiências de quebra de expectativa, ou depois de ser confrontado em uma conversa. Essas pessoas que não me encantam, é preciso amá-las?

Mas se é preciso amá-las, pode ser de longe?

É justo dizer para esses caras, olha, eu estou tentando te amar mas você não está me ajudando?

O povo da igreja com certeza diria que não, que esse não é o caminho. Mas e se a igreja fosse cheia de papisas velhas e divertidas, o que elas diriam sobre essa dificuldade de amar homens desinteressantes?




Desde que eu saí de São Paulo



Her secret life, Jack Vettriano


Eu nunca gostei de São Paulo. Eu sempre gostei das pessoas que moram em São Paulo. Nunca foi a cidade. Nunca foi um lugar que eu senti que gostava de mim e que me acolheu. Sempre foi um lugar feio onde eu fui muito triste e muito feliz. E também nunca fui como os meus amigos paulistas que chegam da praia dizendo "que saudade da poluição".

Mas desde que eu saí de São Paulo as conversas mudaram. São Paulo doa a quem doer é um lugar onde as pessoas conversam e são suficientemente contemplativas.

No Rio, se você tirar a praia, não existe isso. Não existe contemplação. É muito calor, é muito tiro, não é uma cidade onde alguém pode sair despreocupadamente na rua e ficar quieto sem que apareça alguém e dê um palpite na sua vida, sem que você tropece ou passe raiva.

Um dia eu fui beber uma cerveja sozinha e levei um livro para estudar. Era de tarde, uma parte tranquila da cidade pelo menos naquele horário. Um homem sujo e barrigudo passou por mim gritando "Olha foi assim que eu criei essa barriga, cervejinha à tarde". Paralisei meio de ódio meio com preguiça de responder. Para essas horas, só uma arma funciona.

Mas é isso. Nâo é um lugar contemplativo. E isso faz falta. Quase todas as calçadas fedem a mijo e são desniveladas, é sempre perigoso, e sempre tem alguém querendo saber da sua vida. Um dia eu estava de sutien na sala e o pessoal da favela da frente jogou um raio laser verde lá dentro da sala só para avisar que estavam se divertindo. Você não tem um segundo de privacidade. Não existe privacidade. A proprietária da pensão onde eu estou morando me mandou um whatsapp quando me escutou chorando no quarto.

Você vai tomar um simples chopp e pergunta se tem alguma cerveja Ale no cardápio. Depois de perguntar pela terceira cerveja ale, o garçom te diz assim, com ares confessionais de um poeta "olha eu vou ser sincero com você, nós vamos tirar esse cardápio em breve". O que é equiavalente a ter dito assim, "nada do que tem aí é verdade".

Eu fui cortar o cabelo e escuto um cabeleireiro contar que uma mulher foi lá, fez o cabelo, depois deixou a bolsa e saiu para comprar um sanduíche e nunca mais voltou. A todo e qualquer momento você cai em um golpe ou escuta falar de um golpe. Daí você aprende que fora de São Paulo as coisas têm a sua própria lei e essa lei é te enganar. Apenas isso.

Uma vez eu tentei reagir e ir até o fim, tentei ligar para todos os números possíveis para denunciar um motorista que não parava no ponto. Eu estava enfurecida porque era o ônibus que vai para a rodoviária e eu tenho um problema de coluna e não podia ficar muito tempo com a mochila nas costas esperando o ônibus. Quando finalmente algum dos ônibus que vão para a rodoviária parou para mim e eu reclamei, o motorista disse "eu sou o único que pára." Quer dizer, aquele era o ponto, mas ele é o único que pára no ponto. Porque aquele ponto tem uma certa propensão para ficar cheio de ônibus então ninguém se dá ao trabalho.

Em um dos meus primeiros almoços em buteco, minha amiga vegetariana pediu uma omelete e explicou que era vegetariana. A omelete veio cheia, coberta, alegremente infestada de pedacinhos quadradinhos de presunto. Na hora de pagar, perguntei se o cara não podia dar um desconto. A resposta dele foi simplesmente francesa, uma bela de uma bufada na minha cara.

Mas eu me perdi. Eu ia escrever sobre a falta de contemplação, de praças, de sombras, de silêncio e acabei escrevendo sobre a corrupção que se infiltra no dia a dia.

Hoje está muito quente aqui no Rio de Janeiro. E eu sinto falta das longas conversas com amigos de outros lugares.








Thursday, September 15, 2016

Um amigo que começou a meditar



A coisa mais legal que aconteceu nesses últimos tempos foi reencontrar um amigo meu que está muito mais feliz.

Há dez anos atrás, a gente tirava sarro porque ele ia na padaria de carro.

Eu e meu namorado da época, aliás, ríamos das pessoas estúpidas no trânsito. "Barrigas nervosas atrás de um volante"- ele dizia.

Mas enfim, esse amigo começou a meditar.

E de repente ele está mais leve e tranquilo e feliz e bem humorado. E está tudo mais doce. E ele não tem mais que encher a cara por causa de timidez, se esconder, ficar calado e nervoso.

Foi uma coisa que me deixou muito feliz. Na época em que a gente se conheceu ele era super católico e eu tinha acabado de descobrir o cristianismo e estava super impactada e triste por não ter descoberto tanta coisa antes.

Mas eu meditava e estava começando a estudar tarô. E a meditação ia começar a mudar a minha vida.

Hoje eu estou super envolvida com cristianismo e ele está meditando. Parece que nós trocamos e combinamos de um fazer o que o outro gostava sem saber.

No final da conversa ele me convidou para ir ao centro que ele vai e disse que depois ia na missa comigo.

Cara, isso derreteu o meu coração.

Quando alguém melhora de verdade e você sabe que a pessoa mudou, dá um sentimento muito bom, um gosto pela vida.



Sinais



Outro dia eu lembrei dessa história e sorri.

Eu estava na véspera de uma prova importante, uma das provas mais importantes da minha vida. Eu tinha estudado muito sozinha.

De repente meu celular tocou e eu recebi uma mensagem de um amigo dizendo que tinha sonhado comigo.

No sonho, eu recomendava um filme para ele assistir, dizendo "assiste esse filme, é muito bom".

O nome do filme era "A Rainha Vitória."

Depois dessa mensagem eu soube que eu tinha passado na prova.

E no final eu passei mesmo. Foi mó legal.

Problemas com autoridade



Fazia muito tempo que eu não levava uma bronca.

E eu sou super orgulhosa e perfeccionista, eu sou do tipo que faz o trabalho muito bem feito, do tipo que nunca é demitida, eu aviso que vou sair do trabalho e entristeço os chefes. Eu já cheguei a levar bronca por me demitir. E como professora eu sou levemente inesquecível.

Mas nessa semana eu levei uma bronca, aliás, duas, e eu estava errada.

Eu também odeio estar errada.

Ser criticada, estar errada, levar bronca, tudo isso é a imagem do inferno pra mim.

É muito orgulho que eu tenho que vencer, tanto orgulho que chega a ser ridículo.

E no meio do orgulho tem a vontade de ser amada, valorizada, a sede de justiça, as minhas fantasias cristãs de morar em um convento pacífico.

Eu não sou uma pessoa muito madura.

Mas felizmente, o meu orgulho já foi esmigalhado muitas vezes e é esse o treino que é o segredo da felicidade. Um dos segredos da felicidade é ter o seu orgulho massacrado porque disso vem uma incrível leveza.

Não se importar tanto com nada, nem com o que os outros dizem de você nem com o que você mesma diz de você.

Saber quem você é e ficar calmo.

Bom, mas eu consegui, depois de desabafar bastante, voltar e fazer bem feito o que eu tinha deixado de fazer.

E agora eu estou aqui, de volta, no ilusório trono do perfeccionismo, da altiva razão, da frágil moral.

Mas o descanso é alguma coisa maior do que estar errado e estar certo.


O descanso tem mais a ver com um sorriso secreto na alma.


Tuesday, September 13, 2016

ando conhecendo pessoas felizes




Tenho conhecido pessoas felizes ultimamente.

E isso é uma graça.

As pessoas felizes têm algumas coisas em comum> A maioria delas têm namorado, elas costumam nunca reclamar, e geralmente elas são cheias de entusiasmo e de amigos.

Elas trabalham como freelancer e adoram viagens.

Coisas que as pessoas felizes fazem: estripulias.

Já vi uma pessoa feliz gravar o canto dos passarinhos para o seu amor.

E vi uma pessoa feliz calçar short sem calcinha na praia, depois de cair no mar, porque a parte de baixo do bikini fica molhada, mas rola só colocar o short por baixo do vestido, nem precisa se preocupar com a calcinha e aquele constrangimento de se trocar na praia na frente de todo mundo e acabar mostrando mais do que gostaria.

Uma amiga que eu conheço disse que gosta de pessoas que sabem tomar "um vento na asa". E falou isso abrindo os braços para cima, enquanto soprava uma brisa do mar e a gente corria para se secar no vento depois de um banho de mar à noite.

Porque assim. Eu conheço as melhores pessoas.

Essa menina me ensinou a mijar de pé no mar, com a água até o joelho, quando o mar está muito bravo e você está apertada.

Vários ensinamentos.


eu, um cara que eu amo e nossos momentos inesquecíveis






Ok. Um texto sobre o amor agora.

Tem esse cara de quem eu gosto. Eu realmente gosto dele. Quer dizer, eu já passei a fase do fogo da paixão e estou resignada sobre o nosso futuro juntos.

É estranho porque racionalmente, com tarô e intuição e analisando os fatos eu sei, aliás, eu tenho certeza absoluta de que nós dois nunca, sem se o mundo acabasse hoje e só sobrasse nós dois na face da terra: nós nunca ficaríamos juntos.

É uma coisa que não combina direito. A ponto de eu saber que meu desejo por ele se mistura com um pouco de nojo e uma ponta de aversão.

Politicamente ele me dá asco.

Mas mesmo assim existe amor. Existe um amor que nasceu e ele não vai morrer nesse coração.

Meu professor de catecismo me dizia isso e era tão legal. De algumas pessoas você vai gostar de graça, sem saber o motivo. É bem isso. Até de pessoas que não "mereceriam" esse amor, você vai gostar. E pessoas que mereceriam muito mais amor da sua parte às vezes não te cativam.

Inexplicável do jeito que é, eu amo esse cara.

Assim, de um jeito estranho, como quando você gosta de alguém que é velho demais, ou novo demais, ou estranho demais, ou que tem uma religião bizarra.

Eu gosto dele. Eu não, meu coração, saiu na frente, pá, e perdi a guerra contra a negação desse amor.

É interessante porque ele sabe disso.

Ele sabe que eu sinto esse amor débil mental por ele.

Mas ele também sabe que it's not gonna happen. E just because. Só porque não temos aquela fagulha essencial que faz as pessoas transarem e se apaixonarem.

Nos falta algo como casal, semelhanças fundamentais e atração física.

E mesmo assim o amor está ali, à espreita, fiel como um cão.

Às vezes é bom estarmos juntos trabalhando, ou fazendo alguma coisa para o chefe, ou discutindo algum assunto de uma aluna, ou procurando cd's em alguma livraria.

Às vezes não estamos fazendo nada também.

Mas o amor está ali. Esse cão idiota, meu Deus. Como ele é persistente.

E no silêncio do meio da tarde, entre uma xícara de café, uma risada e uma preocupação com algum texto do xerox,


o amor descansa entre nós.

Como um gato enrolado aos pés do dono. Encostando só as costas, só esticando uma pata para sentir a companhia do seu joelho.

E é o suficiente.



Levando o perdão até as últimas consequências




Eu estou lendo um livro sobre perdão.

Ainda não sei direito o que eu acho desse livro. Mas tenho um bom pressentimento.

Enfim, o livro fala sobre nossa tendência de culpar os outros e oferece outra via de comportamento.

Mais ou menos assim, o que aconteceria com uma pessoa, comigo ou com você se a atitude de culpar alguém simplesmente não existisse mais no seu leque de comportamentos habituais?

Queria escrever mais sobre esse livro mas preciso fazer milhões de outras coisas.

Por exemplo, voltar a ler esse livro.

reencontrando o último cara que me magoou muito




Meu pai me perguntou outro dia se eu tinha conhecido alguém. Minha mãe soltou outro dia durante uma conversa que eu tinha "problemas de relacionamento."

Sabe o que é pior?

Como é que você chega para os seus pais e diz assim, "pai, mãe, todos os homens que eu conheço se incomodam comigo e querem me colocar pra baixo. Até meus terapeutas fazem isso. E eu saio fora da relação porque isso é saudável. E eu não aguento mais e agora eu estou de férias de ser uma artista odiada pelos homens que pareciam tão interessantes e ficam brincando de provar que eu sou pior do que eles."

E isso não resiste a vários questionamentos. Isso não passa por exemplo por verdadeiro para qualquer psicóloga de esquina que venha com um discurso pronto do tipo "isso é uma crença limitante sua, querida, enquanto você pensar assim, nada de bom vai te acontecer."

É por essas e outras que o Cristianismo me ajuda.

O Cristianismo diz que todo mundo é pecador.

Pelo menos é uma perspectiva melhor do que culpar a vítima e dizer que ela "atraiu" aquela merda para si porque afinal ela está com "bad vibes".

Enfia essa bad vibes no olho do teu cu.


Eu ia falar sobre o reencontro com o último cara que me magoou muito. Mas é chover no molhado.

Acho que vou falar sobre o livro que ando lendo e sobre o treinamento de não culpar ninguém nunca mais.




nada que seja pesado




Foi nesse último sábado antes do assalto, eu acho.

Estávamos caminhando na rua de noite, eu e duas amigas. E uma delas estava narrando pela centésima vez uma história de abuso em um relacionamento passado. O problema é que ela estava revisitando uma história desinteressante, e violenta, que nós já conhecíamos porque ela já tinha contado essa história com outros detalhes antes.

Um cara que queria sempre o almoço dele ao meio-dia, um cara que ela só parou de agradar quando eles pararam de transar.

Então eu cortei o relato dela e pedi para a gente falar de coisas (não sei sei eu disse leves ou felizes, mas acho que foi felizes). Isso foi totalmente contra a filosofia da comunicação não violenta e a escuta ativa, que eu valorizo muito e que significa você apenas escutar o que a pessoa precisa te contar sem dar conselhos malditos e lições de moral e sem se comparar com ela e dizer coisas como "pior eu que..." ou "pelo menos você não pegou uma doença/morreu/sofreu um ataque de zumbis".

Mas foi bom pra mim. E acho que foi bom pra ela. Amigas não são terapeutas e cada uma precisa de um pouco de paz e diversão na vida. E ela estava começando a cansar repetindo a história. Mesmo que ela precise repetir. Na caminhada de sábado à noite pra casa, é um pouco demais.

Só que daí ela decidiu contar uma história feliz e começou a contar de como o motel que ela foi com um cara com quem ela transou e nunca mais viu era bonito.

Amiga, me ajuda a te ajudar?

É tenso né. Essas coisas que atravessam a amizade entre as mulheres, essas coisas como fazer merda, ser agredida, fazer merda, ser agredida, fazer mais merda, contar a merda que você fez para as amigas.

Essa moça tem muita culpa. A gente ouviu, a gente falou que culpa não adianta nada.

Mas não é isso. Ela é uma pessoa que eu mal conheço com problemas que eu entendo, mas que ao mesmo tempo eu não entendo.

Eu não sei qual é a dor que ela sente. E às vezes eu preciso me esforçar pra manter essa perspectiva e voltar a ser sensível.






O padre me assombrando



Acho que foi a primeira vez que eu odiei um padre.

Com todas as minhas forças.

Ele me disse que eu não devia cair na tentação de ser um herói ou uma vítima.

Porque afinal ninguém é Cristo. (No que ele estava completamente certo).


Mas eu escrevo que


As pessoas deviam receber um treinamento para ajudar as outras.


É só isso que eu quero deixar escrito hoje.

uma grande reflexão censurada



Hoje chegaram algumas caixas no trabalho e brincaram comigo sobre eu ser feminista e querer igualdade e sobre a minha obrigação em carregar as tais caixas como os homens que estavam se prontificando a carregar estavam fazendo.

Só que era uma piada.

E... eu não ri.

Na verdade eu acreditei que quem fez essa piada pensasse assim. Porque em geral é na hora de pagar a conta, e só na hora de pagar a conta que o assunto feminismo aparece. Ou na hora de dividir a carga.

Mas não era sobre isso que eu ia escrever.

Escrever se tornou uma atividade triste para mim. Por mais que me traga alegria. Eu fico feliz quando minhas AMIGAS dizem que gostaram do que eu escrevi. Mas.

A verdade é que depois de alguns anos de feminismo o mundo fica triste, viver fica triste, resistir, desistir fica triste. Reagir, passar a vida lutando ou apenas não conseguir evitar a consciência sobre a violência que te atinge é profundamente triste.

E saber que a luta não será ganha é mais triste ainda. Os homens aprontaram e vão continuar aprontando, assassinando, estuprando, matando, fazendo os comentários que eles fazem, na rua, entre eles, na sua cara, quando vocês estão a sós.

Mas mais do que isso.

Mais do que desistir de explicar para um cristão o quanto é sujo reduzir o feminismo a uma ideologia de esquerda nefasta enquanto tantas mulheres são assassinadas no Brasil (o número aumentou mais de 230 por cento segundo o Mapa da Violência, pelo que eu me lembre, na última vez que contaram uma última década, não vou olhar isso de novo).

Mais do que explicar que a existência de Deus atravessa a minha vida e que isso não quer dizer que eu vendi meu cérebro para uma Igreja do Mal que "matou tanta gente na Inquisição"

Ou seja, ser uma feminista cristã, isso ficou impossível, e me cansou.

Mas é mais, ainda é mais do que isso.

A vida exige que eu me posicione. As pessoas, as oportunidades que aparecem. De novo a vida vem me convidando docilmente para ser justa. Comigo, ou com mulheres que eu conheço e com as que eu nem conheço.

E é dessa consciência que é difícil fugir. Talvez seja um fetiche, talvez eu esteja me dando muita importância, mas e se for assim?

Escrever tem sido um exercício triste.

Não posso e não quero falar. Essa é a verdade. Quero ser verdadeira, mas não quero falar.

Não quero fazer terapia. Não quero falar. Não quero as palavras. Mas as palavras são meu descanso.

Talvez eu volte a fazer música.


A música pelo menos não machuca tanto se não tiver letra.


Estou cansada hoje. Docemente cansada. Só isso. Só saber que ser verdadeiro exige de mim uma força que eu não tenho agora.

Hoje vi um desabafo de uma amiga sobre violência psicológica. Admirei a coragem que ela teve para se expor, para avaliar a situação com cabeça fria, para dizer o que pensa.

Eu fiquei tempo demais sem dizer o que eu penso.

Se eu abrir a boca, é tanto ódio que eu prefiro matar alguém.

Mas agora eu estou no caminho da santidade e não posso matar nem acusar ninguém.

É um saco.













Friday, September 09, 2016

The Flying Concellos, o maior casal de trapezistas da história do circo




Achei essa foto pesquisando trapezistas.

A Amiga Nova



Trapeze Dreams, By Blackiliner


Minhas melhores amigas eu conheci em sala de aula. Com exceção de uma amiga que eu conheci em um bar, lendo tarô cigano, minhas melhores amigas eu conheci em salas de aulas, eventos acadêmicos e bibliotecas.

Nesse dia em que conheci a Amiga Nova, que vou chamar de Trapezista, eu resolvi falar durante um evento muito chato sobre realismo fantástico. O evento já tinha congelado, se uma alma penada aparecesse, ninguém se assustaria. Eu poderia encontrar uma cabeleira loira em um canto da sala ou cuspir coelhos que ninguém ia nem tremer. A sensação de tempo parado era enorme.

Então eu resolvi fazer um comentário, e depois eu fiz outro comentário e depois outro. O tempo tinha que passar e eu ia fazer alguma coisa com meus pensamentos, compartilhar. Era uma descida ao inferno, eu não tinha reputação, eu não tinha nada a perder, ninguém ia dizer nada, então eu falei. E todas as vezes em que eu abria a boca, uma menina da plateia que estava sentada duas fileiras à minha frente virava a cabeça e sorria.

Ela usava um rabo de cavalo e óculos de aro azuis, uma roupa jeans do século passado ou dos anos oitenta, que bem poderia ter sido da Rita Lee ou da minha mãe. E quando podia, ela olhava para mim e sorria um sorriso transparente cheio de vida porque afinal eu estava falando sobre um livro com bruxas e feiticeiras ou sacrifício de carneiros e os meus assuntos amenos típicos do dia a dia. E ela me olhava com os olhos acesos.

E eu quis muito ser amiga dela. Mas eu já tinha gasto todas as minhas fichas sendo a louca do congresso. Eu não tinha mais energia. Quando tudo terminou eu fui no banheiro e ela estava lá, então nós nos olhamos e sorrimos e eu perguntei se ela já tinha lido aquele livro sobre Jung e ela disse que já tinha ouvido falar.

Eu quis muito passar meu telefone, pedir o telefone dela. Mas eu já tinha gasto a cota de ímpeto do dia. Então eu saí do banheiro derrotada, esperando encontrar essa menina em algum outro dia.

E eu encontrei. Na próxima festa. E foi ali que tudo começou.

Deus é o melhor para apresentar as pessoas. Não tem nada como um encontro orquestrado por Deus em que você tem certeza absoluta de que aquele encontro foi coordenado, foi estrategicamente pensado para aquele momento da vida daquelas duas mulheres que vão aprender muito uma com a outra.

E foi assim. Ela chegou na festa e eu disse "eu queria mesmo te encontrar de novo" e ela disse alguma outra coisa como "eu também" ou "que massa" e assim foi, não aconteceu aos poucos, aconteceu de uma vez.

Foi um laço definitivo que se formou em uma noite enquanto sentamos no chão do meu quarto contando segredos.

Só uma noite e foi suficiente para o sentimento de porto seguro e de grandiosidade.

Porque há pessoas tão vastas, tão grandes, tão antigas que a sensação de conhecê-las é a sensação de visitar outro país, de passear por uma biblioteca, de assistir todos os filmes mais poéticos da sua vida.

Algumas pessoas têm mania de dizer que mulheres competem entre si, que mulheres não se ajudam, que mulheres falam mal uma da outra e não se unem.

Então às vezes é importante escrever e deixar escrito que não é só esse tipo de rivalidade entre mulheres que acontece. Não é. Às vezes o que acontece é uma porta para viagens muito maiores do que os músicos do Pink Floyd jamais sonharam.

Às vezes o encontro entre duas mulheres tem a força de duas gestações, de duas tradições de vivências e narrativas, de duas almas trapezistas que caíram muito mas que conhecem o tempo suspenso no ar.

A escrita não é o lugar dos nossos segredos. A vida é.








São Paulo não tem uma luz bonita, mas tem luz



Foto: Luis Fernando Gallo, CBN.

Minas Gerais tem uma luz bonita, dourada e espessa, uma luz do tempo que se arrasta pela tarde. É uma luz quase dura, e quase palpável, mas é dourada, então é uma luz cheia, que desce pelo dia, que cai nas cabeças das pessoas como uma benção.

É a luz do tempo antigo, de quando ainda se matava e morria por motivos como herança, intriga, revolução e não o craque e a polícia.

O Rio de Janeiro tem uma luz de cinema, uma luz branca, branca, aberta, esparsa, imensa, que fere os olhos. Uma luz tão branca que dá vontade de voltar para casa.

Mas na praia, essa luz branca deixa tudo com gosto de sonho, todas as pessoas ficam suaves, participando daquela cena de filme em que algo muito bom está prestes a acontecer, aliás, está acontecendo ali, com todo mundo, com ninguém em particular, apenas uma luz branca, extremamente branca e suave, de inverno, geral, aberta, escandalosamente farta; é muita luz mesmo os olhos não aguentam então me dá um beijo para eu fechar os olhos.

São Paulo é bonita em março, abril, maio e só. É quando tem o outono na cidade, o ar está gelado, as mulheres andam de bota e os homens de cachecol e sobretudo. E todo mundo está bonito e sério e fuma cigarro e a fumaça é azulada na tarde fria com o céu sem nuvens. Muito amor nas sombras alongadas das praças e no vinho quente dos bares da paulista de noite.

Mas é isso, três meses de luz bonita dourada e o resto é um borrão. O resto são o verde e o branco e o amarelado e o vermelho dos faróis dos carros e dos semáforos e das placas e do neon da rua Augusta. O resto são luzes artificiais.

Mas em São Paulo moram algumas pessoas que te pegam pela mão e te salvam no meio da noite. No meio da vida. Elas te salvam. Elas sabem o que é fazer um salvamento noturno e um resgate, elas te levam para casa e te oferecem bebida e comida e cobertor. E talvez, livros.

Então São Paulo é a cidade mais quente.

Sunday, August 14, 2016

assistindo o furacão se formando


1.

É estranho. A sensação atual é a de olhar para uma situação e ver o furacão se formando. As peças, as sombras, as energias baixas agindo ali, o furacão e o céu escuro.

E saber que tenho diante de mim um furacão é estranho porque já estou preparada para quando tudo for para os ares e ao mesmo tempo talvez seja verdade que eu tenho tempo de reverter a situação com meus pensamentos, com orações e com algum feitiço próprio. Algo que eu possa inventar.

Eu vejo adiante, ele vem chegando, mais um homem que vai me destruir, ele vem chegando cheio de entusiasmo para a destruição.

Eu olho e penso: que falta de criatividade.

2.

Diante daquele presságio, diante de um comportamento dominante e abusador, do uso do conhecimento em causa própria ou para causar dano e destruição, diante da ironia fina e do sarcasmo lancinante, e de uma inteligência bem humorada e ácida que esconde um vazio e uma profunda insatisfação com a vida,

está a minha presença

a minha dor

a minha risada

e depois

a escrita.

Wednesday, August 10, 2016

conselho para quem escreve: não escute ninguém



Acho que foi ontem que eu pensei nisso. Eu acho que o melhor conselho para quem escreve é não ouvir ninguém. Haha. Não escute ninguém, apenas escreva. A escrita vai encontrando o caminho que ela quer.

Claro que ler ajuda, estudar sobre roteiro ajuda, grifar livro, jornal, ler poesia, ensaio, que a correção de um editor é tão fundamental quanto a do seu amigo poeta. Mas quando eu comecei a escrever, cheia de medo, na internet, com meus vinte e um anos, já estava bom.

Era até melhor do que hoje. Quer dizer, o tempo passa e nossa flexibilidade muda, nossa sensibilidade muda. Quanto mais o tempo passa, menos juventude, menor energia, menor espontaneidade muitas vezes.

Por que alguém precisa de tanta técnica e conselhos se tudo o que a pessoa viveu é material suficiente para poder escrever por anos.

Entender a língua, amar o estilo de um escritor, aprender um idioma, estudar latim, gramática, fonética, morfologia, literatura e teoria literária, falar de livro, comprar livro, grifar livro, pintar livro de aquarela, fazer dedicatória.

Mas esse mundo aqui dessa pessoa que eu invento agora é bom, é suficiente para escrever.

Não dá para se perder e ir tão longe.

Eu não quero ouvir mais ninguém. Só quero escrever e reaquecer a escrita. Tentar sempre fazer um livro, mas estar aqui.

Estar aqui de volta. E depois desistir de tudo e apagar tudo. Essa liberdade que talvez seja uma das últimas liberdades disponíveis.

Estar aqui.

Monday, August 08, 2016

Domingo na praça com varizes





Hoje era domingo. Eu chamei uma amiga para conversar e tomar sol em uma praça bem simpática que fica perto da casa dela. Estamos as duas sentadas em um banco limpo desses verdes com tábuas de madeira, bem antigos e que lembram a infância, ela pára, olha para frente e me diz "a gente precisa cuidar das varizes."

Sabe, eu fico impressionada com a quantidade de lixo que tem na cabeça das pessoas, mas quando você é mulher, essa quantidade é bem identificável, bem precisa, boa parte dos pensamentos ruins das mulheres são ideias bem pouco complexas tecidas com o puro fio de seda do tormento sobre o próprio corpo. Eu conheço essa merda, demorei bastante tempo para largar o hábito de colocar defeito no meu corpo. Essas conversas sobre o corpo, essas conversas que vão tomando o nosso tempo e que não levam a nada. Essa minha amiga não consegue mais ser feliz. Alguém que senta em um banco de praça com você no domingo de sol, de manhã e te diz "a gente precisa cuidar das varizes" não pode estar bem, não pode saber alguma coisa consistente sobre a felicidade.

Eu devia ter respondido alguma coisa do tipo "ah vai cagar" ou "qualquer velha cheia de varizes é mais feliz do que você". Mas seria péssimo. Indelicado, reativo. E não ia ajudar em nada a felicidade dela. Ou talvez ajudasse, os mestres zen atiravam os discípulos pela janela, pelo que me disseram. Mas uma resposta assim não provocaria uma iluminação.

A gente passou por uma banca de jornal e tinha uma capa bonita com uma cantora grávida posando de frente, com os cabelos soltos, o barrigão à mostra e uma roupa de roqueira. Eu achei super legal, daí fui comentar, e essa amiga vem e me diz "ela tá enxuta agora, grávida mas enxuta." A beleza da imagem foi trocada pelo peso e gordura da pessoa retratada.

Se eu dissesse que essa amiga é gorda, seria mentira, mas seria um consolo. Só que ela não é gorda, nem rechonchuda, ela só tem um pouco de barriga. Nem motivo para a infelicidade com o corpo ela tem. Alguém poderia dizer que eu não posso julgar, que 5 centímetros de barriga podem acabar com a vida de alguém. Sim, eu entendo isso, a gente pode colocar a felicidade a perder por qualquer motivo mesmo.

Essa minha amiga é uma das melhores pessoas que eu conheço, mas ultimamente eu tenho percebido que ela não tem as manhas de ficar bem. Isso é uma coisa que você desenvolve com o tempo. Exige certa destreza mesmo, não deixar que a infelicidade tome conta de tudo. Apenas não deixar, ser firme, como quando matamos uma barata.

Há um potencial doentio na tristeza. Um potencial de abismo, de eternidade azul e de morte lenta antes da morte lenta.

Aprendi, com quase quarenta anos, a evitar a tristeza pelo menos nos pensamentos. A tristeza invade o corpo e você precisa encontrar um jeito de tirá-la dos seus ossos, da sua pele, do seu estômago, do coração. A vantagem de envelhecer com elegância é essa, conhecer os seus próprios demônios, as suas dores, as suas faltas. Fazer uma faxina no corpo, seja gritando, rindo, falando palavrão, cantando, correndo uma maratona, fazendo reiki, bebendo a ayawaska, indo no culto, no terreiro, na casa do seu melhor amigo.

A tristeza pode dominar o corpo e a alma. Se você não vigia seus pensamentos, a cabeça pode virar uma caixinha de música com canções repetidas, que só toca um monte de preocupações, girando uma bailarina louca de ácido.

Eu sei que nós duas somos tristes, mas somos diferentes. Ela enxerga a vida como uma eterna falta, uma eterna insatisfação. Eu não dou tanto valor para o inconsciente, pra mim, Deus está acima das nossas funções psíquicas. Eu disse isso pra ela no banco.

Ela está caindo no abismo da tristeza.

Bateu um vento na rua, todas as folhas secas das árvores voaram, formando uma cortina de metros de confete natural, um redemoinho poético de folhas verde e vermelhas. Eu abri os braços, ela fechou os olhos e disse "poético? esse monte de poeira?"





Friday, July 01, 2016

as sandálias da humildade







A igreja que eu frequento faz um encontro com as pessoas da comunidade para revisar a doutrina e fortalecer a fé porque se você não ficar muito em contato com pessoas que tenham fé, a sua própria fé pode ir se enfraquecendo.

O mais legal desses encontros são as histórias das pessoas. Quando as pessoas se abrem e contam alguma uma história recente ou antiga que tem a ver com o tema do estudo daquela noite.

Na última vez que eu fui, o tema era a misericórdia de Deus. Mas o mais divertido foi o padre dizer que antes ele falava mal de padre e agora parou com isso. Eu gosto do senso de humor dele.

Esse padre dá aulas em uma universidade e estava triste porque muitos dos alunos não tem a menor fé em Deus. Mas sempre que conversamos nesses encontros, percebemos nossas próprias dificuldades mais do que as dos outros.

O padre falou sobre a importância de ser um missionário, de se importar com os amigos que não estão na igreja, com os familiares, incluir as pessoas que amamos, sem pressão. Sejam criativos, ele disse, falando que as pessoas apaixonadas são criativas.

Eu sempre achei estranho o outro coordenador dizer que nós fomos escolhidos. Eu sempre pensava que eu não tinha feito nada de mais para ter sido escolhida por Deus no lugar de outra pessoa. Nessa noite o padre disse que Deus tem sua própria metodologia e que ele escolhe alguns que vão atraindo outros. Pelo menos foi isso o que eu entendi.

Mas enfim, o padre disse que o que mais alegra a Deus é ter misericórdia e ternura por nós, seus filhos, para que nós sejamos assim também com os outros.

Eu estou longe de calçar as sandálias da humildade, mas não vou negar que melhorei. Um pouco pelo menos eu melhorei.

Já posso calçar meu salto alto vermelho.